Vivendo rápido demais para notar

imagem: envato

Quando foi a última vez que você fez uma refeição sentindo apenas o sabor do alimento, sem dividir a atenção com telas ou com a lista mental de preocupações e afazeres do dia? A pergunta parece banal, mas revela um sintoma coletivo: vivemos no piloto automático. A sensação é geral: o dia precisaria de mais horas, a semana voou e o cansaço já não se resolve com uma simples noite de sono.

Vivemos sob a ditadura da produtividade, em que a pausa é vista como fraqueza. Nessa corrida, desenvolvemos uma cegueira funcional: atravessamos os dias sem notar as mudanças ao redor, o tom de voz de quem amamos e, o mais grave, os sinais de socorro do nosso próprio corpo.

A pressa cobra um preço alto. Como psicóloga e neuropsicóloga, observo que o cérebro, em alerta contínuo, entra em exaustão. A ansiedade torna-se um estado permanente, a irritabilidade substitui a paciência e a memória falha por sobrecarga. Ocupados em “dar conta de tudo”, negligenciamos o essencial: a nossa saúde mental e a qualidade das nossas conexões.

É preciso desmistificar a ideia de que desacelerar é sinônimo de preguiça ou improdutividade. A pausa intencional é manutenção da vida. Quem não encontra tempo para descansar será forçado a encontrar tempo para adoecer. O corpo tem sabedoria própria e grita, por meio de dores, insônia, crises de ansiedade e de pânico, quando os sussurros do cansaço são ignorados.

Além disso, há também o custo espiritual e relacional. A pressa é inimiga da intimidade: não se ama, não se escuta um filho nem se cultiva a fé olhando para o relógio. A desconexão consigo mesma gera a desconexão com o outro e com a Trindade (Pai, Filho e Espírito Santo).

O convite não é para abandonar as responsabilidades, mas para retomar a regência da própria vida. Assim, podemos entender que viver com consciência é perceber quando o peito aperta e compreender que é hora de respirar. É reconhecer que o trabalho não é a sua identidade completa. É ter coragem de dizer “não” ao excesso para dizer um “sim” verdadeiro à sua saúde e à sua família.

Que possamos aprender a desacelerar, não para parar de viver, mas para viver de verdade, sentindo, percebendo e agradecendo a Deus por cada etapa do caminho.

Compartilhe esse conteúdo!

Inscrever-se
Notificar de
guest
0 Comentários
mais antigos
mais recentes Mais votado
Feedbacks embutidos
Ver todos os comentários

Matérias Recentes

0
Adoraria saber sua opinião, comente.x