O Deus que prepara bolachinhas

imagem: envato

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Eu tinha vinte anos quando me mudei para Goiânia. Lembro que fiquei admirada com o frio do mês de junho, já que, comparado a Palmas -TO, lá não fazia frio nenhum. Lembro-me de poucas coisas, na verdade. Foi uma mudança conturbada. No entanto, sempre senti o cuidado de Deus comigo nos mínimos detalhes.

Um deles é a história da bolachinha. Até 2022, eu contava que essa era a minha melhor história, a mais doce da parte de Deus, apesar de a bolacha ser salgada. De 2022 para frente, essa história passou a competir com a da libertação da minha depressão, mas, ainda assim, guardo por ela um carinho especial.

O ano era 2016, e eu tinha acabado de me mudar para Goiânia. O bairro não era dos melhores, mas eu amava meu barracão. Era bem frio, mas eu amava. Certo dia, dei um olhar de 360 graus na minha cozinha e percebi que não tinha muita coisa ali. Havia algumas misturas: arroz, feijão, talvez ovos. Eu tinha comida, certamente não morreria de fome nos próximos três dias, já que, não tendo dinheiro nenhum, logo receberia.

Então notei que não tinha mais nenhum pacote da minha bolachinha de água e sal. Aquelas quadradas e furadinhas que todo supermercado vende. Na época, eu estava começando a conhecer e a tentar construir um relacionamento com o meu pai biológico e pensei: por que não pedir um dinheiro emprestado a ele, já que ele é meu pai?

Liguei para ele e pedi cinquenta reais emprestados. Lembro exatamente das palavras dele. Bem irritado, disse que não tinha e que, de jeito nenhum, pediria dinheiro emprestado a ninguém. Mas também lembro da primeira coisa que me veio à cabeça: por que estou pedindo pra ele? Eu tenho um Pai.

Então fui até o meu quarto e me ajoelhei, porque, naquela época, eu cria que Deus só me atenderia se eu orasse de joelhos, o que, claro, não é verdade, e hoje tenho plena consciência disso. Em pensamento, disse a Ele que eu precisava de muitas coisas, mas que a única coisa que eu realmente queria era a minha bolachinha de água e sal.

Eu mal tinha terminado de falar quando ouvi meu vizinho me chamar. Quando saí, me deparei com ele cheio de sacolas e logo perguntei o que era tudo aquilo. Ele disse que havia passado na feira e que tudo aquilo era pra mim. Sinceramente, achei um exagero, já que eu devia ter uns trinta e cinco quilos.

Não fiquei nem um pouco impressionada, porque Deus sempre fazia isso comigo. Não fiquei, até abrir a sacola das maçãs. Ao mexer um pouquinho, notei, lá no fundo, um pacote de bolacha de água e sal.

Contive as lágrimas, mas, com a carinha do Gato de Botas, do filme Shrek, perguntei onde ele tinha achado aquele pacote de bolacha de água e sal, já que tinha ido à feira. Ele respondeu que, quando estava voltando para casa, passou na casa dele e pegou um dos pacotes que tinha.

Pouco lembro do que aconteceu depois desse momento, mas lembro de encarar aquele pacote em cima da geladeira pelos dias seguintes e pensar no quanto eu era mimada e que Alguém estava me ouvindo, me assistindo.

Sempre tive muita gana de contar os feitos que o Senhor tem realizado na minha vida, em especial esse. E o que posso te dizer com isso?

O Deus que ama especificidade está esperando que você seja específico.

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