Abril é conhecido mundialmente como o mês de conscientização sobre o autismo, um tempo dedicado a ampliar o conhecimento, combater preconceitos e promover mais compreensão, empatia e acolhimento. Mais do que um diagnóstico, o autismo revela histórias de famílias que aprendem, todos os dias, novas formas de amar, compreender e caminhar juntas.
Por trás de cada laudo existe uma vida real, marcada por desafios, descobertas e muitas conquistas. Nesta entrevista, conversamos com Cristiane Pires de Moraes, de 43 anos, mãe de Gustavo de Moraes Dourado, hoje com 12 anos. Gustavo recebeu o diagnóstico de autismo aos quatro anos de idade, e desde então a vida da família passou a ser marcada por aprendizado, adaptação e uma jornada de cuidado e esperança.
Nesta conversa, Cristiane compartilha sua experiência como mãe, os desafios enfrentados desde o diagnóstico e as descobertas que fizeram ao longo do caminho, revelando que conscientizar também é ouvir histórias, acolher realidades e aprender a enxergar o mundo por outras perspectivas. Confira a entrevista na íntegra:
- Como foi o processo até o diagnóstico do Gustavo e como isso impactou você e a sua família?
No caso do Gustavo, trata-se do autismo regressivo, ainda pouco conhecido. Ele apresentou um desenvolvimento aparentemente típico, falava algumas palavras e interagia, mas, em determinado momento, perdeu essas habilidades, o que nos levou a buscar ajuda. Receber o diagnóstico foi muito marcante para toda a família. No início, foi uma mistura de sentimentos, já que o autismo ainda era algo distante da nossa realidade. A partir dali, um novo mundo se abriu: começamos a buscar informações, tratamentos e profissionais que nos ajudassem a compreender melhor o autismo e apoiar o desenvolvimento do Gustavo. Eu e meu esposo abraçamos essa missão. Como mãe, me vejo como qualquer outra, que deseja o melhor para o filho. Meu maior objetivo é ver o desenvolvimento e a independência do Gustavo, e nossa luta diária é encontrar caminhos para que ele evolua e conquiste seu espaço no mundo.
- Quais são os desafios mais invisíveis que mães de crianças autistas enfrentam no dia a dia?
Um dos maiores desafios é garantir que os direitos da criança sejam realmente respeitados. Embora existam leis que asseguram acesso à educação, saúde e atendimento prioritário, na prática, muitas vezes esses direitos não são cumpridos. O tratamento do autismo é contínuo e envolve diversos profissionais, sem um prazo definido, já que cada criança tem seu próprio ritmo e suas particularidades. Por isso, cada família precisa buscar um acompanhamento específico, e aí surge outro grande desafio: o acesso. O sistema público é falho, os planos de saúde nem sempre oferecem o suporte necessário, e muitos profissionais qualificados atendem apenas no particular.
Além disso, muitas escolas ainda não estão preparadas para uma inclusão real. Incluir não é apenas receber a criança, mas adaptar o ambiente e as atividades às suas necessidades. Cada avanço, cada direito garantido e cada conquista é fruto de muita luta das famílias, e essa luta é constante. Recentemente, mães precisaram se mobilizar em Brasília contra medidas que poderiam limitar o acesso a terapias, mostrando que é preciso permanecer vigilante para não perder direitos já conquistados.
- Na sua opinião, o que a sociedade ainda precisa compreender melhor sobre o autismo e sobre as famílias que convivem com ele?
Apesar de toda a divulgação nos últimos anos, ainda existe muita desinformação. O autismo não é uma doença, mas uma forma diferente de perceber e compreender o mundo, é um cérebro que aprende e funciona de maneira distinta. Infelizmente, ainda presenciamos situações dolorosas. Já vi crianças autistas chegarem a um parquinho e alguns pais afastarem seus filhos, como se o autismo fosse contagioso. Isso machuca muito as famílias. O que muitas vezes falta é informação, empatia e respeito. A maioria das crianças autistas tem potencial para aprender, crescer e conquistar seu espaço, como qualquer outra criança. A diferença é que o caminho pode ser diferente e, muitas vezes, exige mais apoio e estímulos.
- Que tipo de apoio faz mais diferença na inclusão e no desenvolvimento de uma criança autista?
As famílias de crianças atípicas precisam, acima de tudo, de acolhimento e compreensão. Esse apoio deve estar presente em todos os ambientes: na escola, na igreja, na comunidade e nos espaços de convivência. Infelizmente, muitas famílias ainda enfrentam isolamento social e olhares de julgamento. Às vezes deixam de ser convidadas para eventos, porque as pessoas não sabem como lidar com o diferente, e isso pode acontecer até dentro da própria família. Isso prejudica ainda mais as crianças, que já enfrentam desafios na socialização. Algumas igrejas e instituições têm avançado, buscando adaptar atividades para receber crianças autistas, o que é muito positivo. Mas ainda é um movimento inicial. O apoio verdadeiro acontece quando há acolhimento, preparo e, principalmente, vontade real de incluir essas crianças e suas famílias.
- Que mensagem você deixaria para mães que estão começando agora essa jornada após o diagnóstico de autismo?
Cada mãe reage ao diagnóstico de uma forma diferente. Algumas buscam informações imediatamente; outras passam primeiro por um tempo de negação ou luto, o que também é natural. O diagnóstico pode assustar, mas também é libertador, porque permite compreender melhor o que está acontecendo e buscar as ferramentas certas para ajudar o filho. Permita-se sentir, se precisar chorar, chore, mas depois levante a cabeça e siga em frente. Hoje existem grupos de apoio e muitas mães caminhando juntas nessa jornada. O diagnóstico não define o futuro do seu filho. Assim como qualquer criança, ele pode aprender, se desenvolver e conquistar sua independência. E lembre-se: ninguém lutará mais pelo seu filho do que você. Muitas vezes nos tornamos verdadeiras leoas e também porta-vozes dos nossos filhos, defendendo seus direitos e sua inclusão. Por isso, cuide também de você, da sua saúde, da sua fé e da sua força. Eu sempre digo: com Deus na frente, amor no coração e sem desistir, é possível vencer essa jornada.