Fevereiro chega trazendo um clima diferente. Para muitos, é tempo de descanso, festa e celebração. Para outros, especialmente no contexto cristão, esse período também desperta questionamentos internos. Não raramente, observa-se que a fé, mesmo sem intenção declarada, acaba sendo colocada em segundo plano. Como se, por alguns dias, fosse possível desligá-la, não abandoná-la, mas silenciá-la. Uma espécie de “modo avião” espiritual.
Esse movimento nem sempre acontece de forma consciente. Ele se manifesta em pequenas concessões, em escolhas feitas sem reflexão mais profunda, em valores que antes eram claros e, de repente, passam a ser relativizados. O que muda não é apenas o ambiente, mas o comportamento. Surge, então, uma pergunta delicada, porém necessária: a fé que professamos é parte da nossa identidade ou apenas algo que ativamos em determinados contextos?
A fé cristã nunca foi pensada como algo fragmentado. Ela não se limita ao templo, ao culto ou a datas específicas do calendário. Pelo contrário, ela se expressa na vida cotidiana, nas decisões simples, nos limites que escolhemos respeitar e na maneira como nos posicionamos diante do mundo. Quando a fé é vivida apenas em ambientes seguros, ela corre o risco de perder a sua força no dia a dia.
Isso não significa viver em isolamento, nem adotar uma postura de julgamento em relação aos outros. Jesus nunca se afastou das pessoas, mas também nunca negociou sua essência para ser aceito. A verdadeira santidade não se manifesta na fuga do mundo, mas na fidelidade aos valores do Reino mesmo quando o ambiente desafia as nossas convicções.
É compreensível sentir a pressão para se adequar. Vivemos em uma sociedade que valoriza o prazer imediato e muitas vezes trata limites como algo ultrapassado. No entanto, ser cristão é, acima de tudo, assumir uma caminhada consciente. É reconhecer que nossas escolhas falam sobre quem somos e sobre o Deus que seguimos.
Colocar a fé em “modo avião” pode parecer uma solução temporária, mas, aos poucos, gera desconexão interior. A espiritualidade se torna frágil, dependente de circunstâncias, e a identidade cristã perde a clareza. Por outro lado, quando a fé permanece ativa, mesmo em tempos desafiadores, ela amadurece. Torna-se menos baseada em regras externas e mais enraizada em convicção, amor e compromisso com Deus.
Talvez o convite deste tempo seja simples, porém profundo: viver uma fé que não precise ser pausada. Uma fé que caminhe conosco em todas as estações do ano, inclusive naquelas em que somos mais testados. Uma fé que nos ajude a fazer escolhas conscientes, não por medo, mas por amor. Porque, no fim das contas, não se trata apenas do que fazemos em fevereiro, mas de quem escolhemos ser todos os dias, diante de Deus e de nós mesmos.
Lembre do maior exemplo de todos, Jesus! Que entrou na casa de pecadores e não se contaminou, pelo contrário, trasformou o o ambiente.