Volta às aulas: mais do que material novo | Entrevista com Leydiane Rodovalho

imagem: envato

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O início de um novo ano letivo costuma vir acompanhado de listas, compras e expectativas. Mochilas novas, cadernos organizados e rotinas ajustadas fazem parte desse ritual tão conhecido pelas famílias. No entanto, a volta às aulas envolve muito mais do que preparo externo: ela toca diretamente o emocional das crianças, dos adolescentes e também dos pais. Para ampliar esse olhar e nos ajudar a compreender o que realmente precisa ser preparado nesse recomeço, conversamos com Leydiane Rodovalho, educadora, escritora, pastora, mentora, esposa e mãe de dois adolescentes.

Atuando na área da educação socioemocional cristã, Leydiane une princípios bíblicos, neurociência e prática pedagógica, sendo fundadora do Programa Self Control, voltado ao desenvolvimento da inteligência emocional de crianças e adolescentes, além de coordenar projetos educacionais na Escola Kingdom. Confira a entrevista na íntegra:

  • Quando falamos em volta às aulas, o que normalmente esquecemos de preparar além do material escolar?

Geralmente esquecemos de preparar o mundo interior da criança. Organizamos mochilas, uniformes e cadernos, mas deixamos de olhar para emoções como ansiedade, insegurança, expectativas e até medos silenciosos. O cérebro aprende melhor quando se sente seguro. Se o coração não está preparado, o aprendizado se torna mais pesado, mesmo quando o material é excelente.

  • Por que o início do ano letivo é um período tão sensível para crianças, adolescentes e famílias?

Porque é um tempo de transição, e o cérebro humano interpreta mudanças como possíveis ameaças. Novos professores, novas rotinas, novas exigências, novos relacionamentos e, em muitos casos, a insegurança das famílias quanto à escolha da escola ativam áreas emocionais do cérebro. Sem acolhimento, esse processo pode gerar estresse, atritos familiares, irritabilidade e até bloqueios no aprendizado.

  • Como as emoções influenciam diretamente o processo de aprendizagem no começo do ano?

As emoções são a porta de entrada do aprendizado. A neurociência nos mostra que um cérebro emocionalmente desregulado tem mais dificuldade de acessar a memória, a atenção e o raciocínio lógico. Emoções como medo e ansiedade acabam “desligando” áreas importantes do cérebro relacionadas à aprendizagem. Por outro lado, emoções como pertencimento, encorajamento e segurança ativam o cérebro para aprender. Por isso, quando crianças ou adolescentes chegam aos primeiros dias de aula emocionalmente desorganizados, precisam de mais tempo para alcançar um estado de aprendizagem profunda.

  • Qual é o papel da família na adaptação escolar, especialmente nos primeiros meses do ano?

A família é o porto seguro emocional. Pequenas atitudes, como conversas diárias, escuta atenta, validação dos sentimentos e uma rotina previsível, fortalecem o cérebro emocional da criança. Na prática escolar, percebemos que crianças cujas famílias caminham juntas nesse processo demonstram mais autonomia, confiança e equilíbrio. É importante que os pais evitem transmitir desconfiança ou ansiedade aos filhos. A adaptação acontece na maioria dos casos, e o papel da família é torná-la mais leve e saudável.

  • Quais habilidades e valores são fundamentais nesse início de ano letivo?

Alguns pilares podem ser trabalhados de forma simples no dia a dia familiar. A vida devocional, por exemplo, por meio da oração e da leitura da Palavra, mesmo que seja apenas um versículo por dia, fortalece a identidade, a fé e a segurança emocional da criança. A disciplina, com rotinas claras e horários visíveis, gera previsibilidade e tranquilidade emocional. A autonomia surge quando permitimos que os filhos tentem, errem e aprendam, fortalecendo sua autoconfiança. Já a responsabilidade é construída ao estabelecer tarefas proporcionais à idade, ensinando compromisso, cooperação e pertencimento. Esses valores formam uma base sólida para que a criança se torne um adulto mais produtivo, maduro e emocionalmente e espiritualmente saudável. Perseverança, respeito e empatia também precisam ser ensinados de forma intencional, principalmente pelo exemplo e pela constância.

  • Que atitudes simples podem fazer diferença para que a volta às aulas seja mais leve e saudável?

Algumas atitudes práticas fazem grande diferença nesse período. Ajustar a rotina de sono alguns dias antes da volta às aulas, deixar o material escolar organizado com antecedência e conversar abertamente sobre emoções são passos importantes. Validar os sentimentos dos filhos, sem minimizá-los, dizendo frases como “Eu entendo que isso está sendo difícil para você”, ajuda muito no processo. Orar com os filhos, entregando o novo ano letivo a Deus, também traz segurança e paz. Além disso, é fundamental lembrar constantemente a criança de quem ela é, e não apenas do que precisa produzir. As palavras que lançamos sobre nossos filhos e sobre o ano têm peso, pois aquilo que declaramos influencia a forma como vivemos. Voltar às aulas é muito mais do que começar um novo caderno, é iniciar um novo ciclo de crescimento. O meu desejo é que cada casa viva esse tempo com mais paz, consciência e propósito, entendendo que cuidar do emocional também é uma forma de educar.

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