O que chegou até minhas mãos?

imagem: envato

A minha história não começou dentro de um lar cristão e eu não cresci ouvindo sobre Deus dentro de casa. Na minha infância e adolescência não tive a oportunidade de conhecer a verdade como a conheço hoje. Foi somente na vida adulta que Deus me alcançou, me separou e me escolheu. Depois de muito tempo descobri algo que me tocou profundamente: antes mesmo de eu conhecer a Cristo, já existiam pessoas orando e intercedendo por mim.

Isso me faz pensar em como a fé pode chegar até nós de maneiras diferentes. Algumas pessoas são alcançadas na fase adulta, depois de muitos caminhos, perguntas e experiências, como foi o meu caso. Outros recebem, ainda muito cedo, aquilo que só mais tarde compreenderão em toda a sua profundidade. E talvez muitos nem percebem, naquele momento, o tamanho do presente que têm nas mãos.

A verdade é que ter pais, avós ou pessoas próximas que apresentem Jesus Cristo, significa que existe uma verdade sendo semeada, uma referência sendo construída e uma fé sendo apresentada antes mesmo que aquela criança compreenda completamente o valor do que está recebendo. Justamente por eu não ter vivido isso na infância, eu consigo olhar para essa oportunidade com ainda mais atenção. Porque há coisas que só reconhecemos como herança quando entendemos o quanto seria precioso tê-las recebido antes.

E foi exatamente pensando nisso que esta edição nasceu.

A nossa matéria de capa nos leva até a história de Loide, Eunice e Timóteo. Uma fé que passou de mão em mão até alcançar uma nova geração. Quando Paulo recorda a fé sincera que primeiro habitou na avó e na mãe de Timóteo, somos lembrados de uma verdade muito simples e, ao mesmo tempo, profunda: o Evangelho também chegou até nós porque alguém decidiu não guardar para si aquilo que havia recebido. Essa reflexão me fez olhar para as minhas próprias mãos. O que chegou até elas e como Deus foi misericordioso comigo! E, principalmente, o que estou fazendo com aquilo que recebi? Porque toda herança também carrega uma responsabilidade.

Na entrevista desta edição, “O professor que a gente nunca esquece”, essa ideia aparece de outra forma. Há professores que permanecem em nossa memória não apenas pelo conteúdo que ensinaram, mas porque disseram uma palavra no momento certo, enxergaram uma possibilidade que ninguém mais havia percebido ou simplesmente nos fizeram sentir capazes. São marcas que atravessam anos. E isso também conversa com a nossa Querida Amiga. Quantas vezes ensinamos sem perceber? A nossa maneira de reagir, tratar as pessoas, atravessar dificuldades, pedir perdão, recomeçar e viver a fé pode se tornar referência para alguém que está caminhando perto de nós.

No Café Teológico, ao revisitarmos o significado do dia 31 de outubro e da Reforma Protestante, somos lembrados de que o acesso que hoje temos às Escrituras também chegou até nossas mãos por meio da coragem e do posicionamento de pessoas que vieram antes de nós.

Por isso, a pergunta que quero deixar para você ao abrir esta edição é: o que chegou até as suas mãos? E mais: que valores você recebeu? Que palavras ainda carrega? Quem ensinou você a orar? Quem mostrou, por meio da própria vida, o que significa permanecer? Que histórias, experiências e exemplos ajudaram a formar quem você é hoje?

Também quero deixar uma segunda pergunta ainda mais importante: o que sairá das suas mãos para alcançar aqueles que vêm depois de você? O fato é que nem sempre teremos dimensão do alcance daquilo que estamos construindo hoje, e é assim que muitos legados começam: sem anúncio, sem aplausos e, quase sempre, no cotidiano.

Por isso, nesta edição, o meu convite é que você leia cada página também olhando para a sua própria história. Reconheça com gratidão aquilo que chegou até você, preserve o que tem valor eterno e tenha coragem de transmitir adiante aquilo que não pode terminar na sua geração. Porque aquilo que hoje está em nossas mãos, amanhã poderá estar nas mãos de alguém que ainda nem imaginamos.

Aproveite esta edição!

Marina Oliveira Lopes Coelho

Editora-chefe – Revista Renascer | Edição nº126

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