As montanhas estavam cobertas por uma neve tão branca que quase ofuscava a visão, mas refletia a suave luz do sol naquela manhã de inverno rigoroso. O ar era cortante, e cada respiração parecia congelar dentro do peito. Foi ali que a jovem médica sueca, apaixonada por esportes de inverno, decidiu passar o dia esquiando com alguns amigos em férias. Ela vestia um macacão térmico azul-escuro, óculos de proteção espelhados e luvas grossas que rangiam ao segurar os bastões. Os esquis riscavam a neve com aquele som seco, enquanto ela descia a encosta em curvas largas, inclinando o corpo para um lado e depois para o outro, como se estivesse dançando com a montanha.
A neve criava um lindo contraste com os troncos escuros dos pinheiros, cujos galhos estavam salpicados de neve, formando delicadas esculturas. Raros eram os esquilos que pareciam se esconder atrás dos troncos para se protegerem dos intrusos, ainda que preferissem buscar um pouco da tênue luz solar.
Ao longe e ao alto se distanciava o grande chalé de madeira escura, o centro administrativo da estação de esqui, com telhado inclinado e chaminés com fumaça, bancos na entrada e suportes cheios de esquis coloridos encostados. As pistas descem pelas encostas da montanha em faixas largas e pequenos postes com bandeiras coloridas marcam o caminho para os esquiadores. Um pouco acima, ela ainda podia ver um teleférico que subia lentamente pela montanha mais próxima, com pessoas se divertindo em com suas roupas vibrantes e imensos gorros de inverno. Um pouco além, o horizonte se preenchia de montanhas cobertas de neve e uma imensa floresta branca se estendia até onde a vista alcançava.
A cada manobra, levantava-se atrás dela um pequeno rastro branco de neve que voava baixo para os lados, com num balé encantador. Em trechos mais íngremes, ela chegava a dobrar os joelhos, ganhando velocidade e deslizando como se voasse sobre o terreno irregular. O vento frio batia contra o capacete e assobiava. Foi numa dessas descidas rápidas que tudo mudou.
Ao tentar atravessar um trecho plano coberto de neve fina, o solo cedeu sob seus esquis. Escondido sob a camada branca, havia um lago congelado. O gelo rachou com um estalo seco, como vidro se quebrando. Num instante, ela desapareceu na água escura e gelada. Quando os amigos, que assistiam de longe a sua aventura, a viram desaparecer, se desesperaram e conseguiram chegaram rápido ao local, onde só conseguiram ver um buraco no gelo.
Debaixo da superfície, o corpo dela havia ficado preso, enquanto a água congelante roubava lentamente o calor de seu corpo. O tempo parecia parado. Os socorristas chegaram com cordas, machados de gelo e equipamentos de resgate. Depois de muito esforço, conseguiram puxá-la. Seu corpo estava rígido, quase sem sinais de vida. O coração havia parado. Já no hospital, máquinas aqueciam lentamente o sangue enquanto equipamentos mantinham o mínimo de circulação possível. Para a angústia de todos que aguardavam e oravam no saguão, cada minuto era uma tortura. Depois de oitenta minutos, quase como um sussurro voltando ao mundo, o coração dela voltou a bater e a vida lhe foi devolvida.
A história é tocante em vários aspectos e possui muitas camadas de aprendizado e emoção. Tem uma nuance, porém, que é profundamente inspiradora: muitas vezes o nosso coração vai se congelando aos poucos, até nos torarmos insensíveis e indiferentes ao nosso redor, muitas vezes tragados que somos por tragédias, decepções, medos e amarguras. Mas basta um sopro de amor genuíno, em meio a círculo de cuidado e proteção, para que, lenta e progressivamente, voltemos a viver plenamente. Podemos dar a isto vários nomes, mas eu prefiro chamar de ressureição!