O professor que a gente nunca esquece – Entrevista com a professora Tayná Pires

imagem: envato

Há professores que passam pela a nossa formação e há aqueles que permanecem na memória mesmo muitos anos depois. Nem sempre são lembrados apenas pelo conteúdo que ensinaram, mas pela maneira como acolheram, incentivaram, perceberam potencialidades e participaram de momentos importantes da trajetória de seus alunos. Neste mês dedicado aos professores, conversamos com Tayná Regina Pires, pedagoga e neuropsicopedagoga clínica e institucional, sobre a influência que um educador pode exercer para além da sala de aula, os aprendizados que nascem dessa relação e aquilo que nenhuma tecnologia é capaz de substituir no processo de ensinar. Confira a entrevista na íntegra:

  • Todos nós parecemos guardar na memória algum professor que marcou nossa história. Na sua visão, o que faz um professor ser lembrado mesmo muitos anos depois de o aluno deixar a sala de aula?

Acredito que um professor nunca é lembrado apenas pelo conteúdo que ensinou, mas, principalmente, pela maneira como fez o aluno se sentir. O professor que marca uma vida é aquele que enxerga além das dificuldades, acredita no potencial do aluno e consegue transmitir conhecimento com humanidade. Muitas vezes, uma palavra de incentivo dita no momento certo permanece no coração por muitos anos. Como cristã, acredito que Deus usa pessoas para tocar outras vidas, e vejo o professor como alguém que pode ser instrumento de transformação, deixando sementes que, certamente, darão frutos.

  • Em uma profissão tão voltada para ensinar, o que os próprios alunos já ensinaram a você ao longo da sua trajetória como professora?

Meus alunos me ensinaram e continuam me ensinando muito. Com eles, aprendo sobre amor, paciência, empatia, resiliência e, principalmente, sobre a importância de olhar para cada pessoa de maneira única. Cada aluno carrega uma história, uma realidade, uma família, sonhos e desafios que nem sempre conseguimos enxergar imediatamente. Ao longo dessa caminhada, também compreendi que ensinar é uma via de mão dupla. Enquanto transmitimos conhecimentos, somos constantemente transformados pelas experiências que compartilhamos com nossos alunos. Eles me lembram diariamente de que também precisamos estar dispostos a aprender, rever conceitos e crescer.

  • Muitas vezes, uma palavra de incentivo ou um gesto de um professor pode influenciar escolhas e até mudar a maneira como um aluno enxerga a si mesmo. O professor tem consciência da dimensão dessa influência?

Nem sempre temos consciência da dimensão que uma palavra ou atitude nossa pode alcançar. Por isso, considero essa uma responsabilidade muito grande. Um professor pode fortalecer a autoestima de um aluno, despertar um talento, incentivar um sonho ou ajudá-lo a acreditar que é capaz. É justamente por compreender essa responsabilidade que procuro ter muito cuidado com aquilo que falo e com a maneira como trato cada estudante. Uma correção pode ensinar sem humilhar, assim como um elogio verdadeiro pode encorajar. Creio que precisamos exercer a nossa autoridade com sabedoria, respeito e amor. A Palavra de Deus nos ensina que nossas palavras têm poder e que devemos usá-las para edificar. Como educadora, procuro levar esse princípio para minha prática diária.

  • Diante de uma geração que cresce cercada por tecnologia, acesso rápido à informação e novas formas de aprender, o que mudou no papel do professor e o que, apesar de todas essas transformações, continua insubstituível?

A tecnologia mudou profundamente a maneira como o conhecimento é acessado. Hoje, o aluno encontra informações com muita rapidez, e o professor deixou de ser a única fonte de conhecimento. Por isso, seu papel passou a envolver ainda mais a mediação, a orientação, o desenvolvimento do pensamento crítico e a capacidade de ajudar o aluno a distinguir informação de conhecimento. Apesar de todas essas transformações, existe algo que nenhuma tecnologia consegue substituir: o relacionamento humano. Um professor pode perceber um olhar diferente, identificar uma dificuldade, acolher uma insegurança, incentivar um sonho e oferecer uma palavra de esperança. A tecnologia pode transmitir informação, mas o vínculo, o cuidado, o exemplo e a capacidade de enxergar o ser humano por inteiro continuam sendo insubstituíveis.

  • Neste mês do Professor, olhando para tudo o que você já recebeu de outros educadores e para aquilo que hoje transmite aos seus alunos, o que você espera deixar nas mãos das próximas gerações?

Espero deixar muito mais do que conteúdos e conhecimentos acadêmicos. Quero deixar sementes de fé, caráter, respeito, responsabilidade, esperança e amor pelo aprendizado. Desejo que meus alunos levem consigo a certeza de que são capazes de crescer, superar desafios e contribuir para um mundo melhor. Também espero que se lembrem de que foram vistos, ouvidos e valorizados. Se, daqui a muitos anos, algum aluno puder olhar para trás e dizer que uma palavra, uma atitude ou um ensinamento meu o ajudou a acreditar mais em si mesmo e a seguir seu caminho, já terá valido a pena. Tenho profunda gratidão por todos os professores que fizeram parte da minha história e pelas oportunidades que Deus me concede de também fazer parte da história de outras pessoas. Afinal, educar é semear. Nem sempre vemos imediatamente os frutos, mas seguimos plantando com fé, amor e esperança, confiando que, no tempo certo, Deus fará florescer aquilo que foi semeado.

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