O que são as sequelas pós-covid?

Trabalho na UTI (Unidade de Terapia Intensiva) Geral do Hospital das Clínicas, em Goiânia (GO). Em 2020, a minha Unidade foi designada para receber os pacientes graves infectados pelo novo Coronavírus. Foi um ano de tensão, crises de ansiedade sempre na véspera de um plantão ou na iminência de intubação de uma vítima do nefasto vírus. Creio que só não entrei  em desespero por sempre recitar que mil cairiam do meu lado e dez mil à minha direita, mas eu não seria atingido (Salmos 91).

A razão do desgaste era óbvia. Um vírus que provoca um comportamento clínico totalmente diferente do que se via anteriormente na natureza. Jovens maratonistas de 40 anos morrendo subitamente após um mês de cura da fase aguda, enquanto idosos centenários sobreviviam depois de longo tempo intubados. A título de comparação, o letal vírus Ebola, foi capaz de exterminar até 90% da população atingida, ou seja, alastra-se e dizima de imediato os atingidos. Por sua vez, a Influenza, causada pelo  vírus H1N1, deixa sua trágica marca nos mais vulneráveis, como idosos, cardiopatas, enfisematosos ou outros pacientes que carregam uma doença debilitante.

A perversidade do Covid-19 recai neste fato, pois cerca de 80% dos infectados mostram-se  assintomáticos ou desenvolvem sintomas gripais leves, outros 10% a 18% terão formas moderadas e sua mortalidade alcança cerca de  0,5% a 3% dos indivíduos acometidos pela doença. Nunca a ciência descobriu uma quantidade tão grande de informações sobre uma doença em um intervalo de tempo tão curto. Em menos de 1 ano foram desenvolvidos o sequenciamento genético do patógeno (agente causador da doença) e a produção em larga escala de várias vacinas, entretanto, as especialidades envolvidas pelos estudos não se capacitaram ao ponto de predizer se o indivíduo irá manifestar formas leves da doença ou se irá evoluir para maiores complicações.

Com o Pastor João Queiroz, aprendi a não perguntar o porquê, e sim para quê. Neste ano de embate direto, adquiri certa experiência que me guiou para o tratamento baseado nas alterações clínicas. Aprendemos que a infecção se desenrola nas seguintes fases: de proliferação viral, de agressão pulmonar e na chamada  hiperinflamatória. Para as demais etapas, o suporte clínico se faz fundamental, com hidratação, oferta de oxigênio suplementar, ventilação mecânica se necessário, hemodiálise, antibióticos contra infecções bacterianas. Exames como a tomografia de tórax para mensurar a extensão do comprometimento pulmonar; dosagem de proteínas e enzimas séricas, com o intuito de verificar o grau de lesão cardíaca, renal ou hepática; além disso,  testes de coagulação relacionados aos  fenômenos tromboembólicos.

Temerosamente, ouvimos que as consequências da doença não se limitam ao período de internação. Isto é verdade, não se pode descuidar após chegar em casa. Devemos nos atentar para o que o nosso corpo nos diz. O cansaço para os afazeres domésticos aponta para fibrose pulmonar, cuja fisioterapia dirigida auxilia significativamente para a recuperação respiratória. Pontadas no peito e palpitação denotam que o coração não anda bem, por isso é essencial avaliar possíveis miocardite ou dilatação cárdica, para as quais existem medicamentos muito eficazes. Dificuldade em recuperar o olfato ou paladar é comum, estender um pouco mais o uso de corticoide e estimular o nariz com cheiros fortes e singulares, ajudam na reabilitação destes sentidos nobres. Outra complicação temível é a trombose, percebida pelo inchaço nas pernas, dores e uma coloração mais arroxeada que remete à imprescindibilidade de iniciar ou prolongar a terapia anticoagulante, para isso, contamos com a  disponibilidade de comprimidos ou injeções subcutâneas.

De todas as complicações, percebo a emocional como a mais danosa. Ver amigos e parentes morrerem ao redor, ouvir e assistir a programas que ressaltam mais o número das  mortes do que das curas nos aflige e, com isso, a incidência de transtornos de ansiedade e depressivos elevam-se a um patamar pandêmico. Muitas vezes o apoio familiar, social e o conforto da igreja são suficientes, quando não, é necessário o  acompanhamento psicoterápico ou a ministração de ansiolíticos ou antidepressivos.

E, sobretudo, confiar no Deus que até agora tem nos guardado, pois Ele é fonte de conforto para muitos de nós. Não sabemos a razão de  pessoas que amamos não terem resistido  a essa doença. A ciência tem lutado e avançado em suas descobertas, porém ainda não o suficiente para que a pandemia  faça parte do passado. É fato que estamos vivos,  devemos lutar, sem nunca perder a fé em nosso Criador, que nos guarda, protege e nos fortalece para seguirmos adiante.

Mais uma vez remeto-me à sabedoria do salmista, proferindo que “alguns confiam em carros e outros em cavalos, mas nós confiamos no nome do Senhor, o nosso Deus. Eles vacilam e caem, mas nós nos erguemos e estamos firmes”. Oro para que estas palavras possam aquietar nossos corações. Amém!

Dr. João Marcelo Cavalcante Kluthcouski

Médico formado pela Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás, com residência em clínica médica e cardiologia pela mesma instituição. Membro do corpo clínico do Hospital das Clínicas de Goiânia e da Clínica Cardioprime

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