“Mas o justo viverá da fé” (Hebreus 10:38).
Esse versículo, que faz referência ao texto do profeta Habacuque (Hc 2:4), incomodava a mente do monge católico Martinho Lutero. Para ele, não fazia sentido que um homem pecador pudesse conseguir se justificar diante de Deus, que é puramente santo.
A partir dessa reflexão, Lutero entendeu que a salvação e a justificação não eram alcançadas por obras, nem pelo pagamento de penitências ou pela compra de indulgências (promessa de perdão dos pecados mediante pagamento financeiro à Igreja de Roma), mas, sim, como um presente gratuito de Deus, recebido unicamente por meio da fé.
Foi nesse contexto que o dia 31 de outubro de 1517 entrou para a história. Naquela data, Martinho Lutero afixou suas 95 Teses na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg, na Alemanha, marcando o início da Reforma Protestante. Esse foi um dos acontecimentos mais marcantes da história da Igreja e da civilização ocidental. Inicialmente, o seu objetivo era promover um debate sobre práticas que haviam se distanciado dos ensinamentos bíblicos, em especial a venda de indulgências.
Na Europa do século 16, a Igreja de Roma exercia forte influência espiritual e política, mas, ao mesmo tempo, enfrentava uma profunda crise moral e doutrinária. Além disso, o acesso à Bíblia era extremamente restrito, já que somente os líderes religiosos que compreendiam o latim podiam entender as Escrituras.
Nesse cenário de frieza espiritual e de regras humanas em conflito com a Palavra de Deus, Lutero e outros reformadores resgataram verdades fundamentais das Escrituras. Essas verdades foram resumidas nos pilares conhecidos como Cinco Solas: somente a Escritura (Sola Scriptura), somente a Fé (Sola Fide), somente a Graça (Sola Gratia), somente Cristo (Solus Christus) e somente a Deus a Glória (Soli Deo Gloria).
Entretanto, um dos maiores legados da Reforma foi reafirmar o acesso direto à Palavra de Deus e redescobrir a salvação como dádiva gratuita do Senhor: a Graça. Quando traduziu a Bíblia para o alemão, idioma do seu povo, Martinho Lutero devolveu aos cristãos a autonomia de ler, compreender e examinar a verdade bíblica. Assim, a fé não precisava mais ser mediada por rituais de sacerdotes, mas voltava a fundamentar-se no relacionamento pessoal com Deus.
Por isso, atualmente, o dia 31 de outubro não representa apenas uma recordação do passado. Ele também se torna um chamado à responsabilidade solene: valorizar o livre acesso às Escrituras, dedicar-nos ao estudo diligente da Palavra e comunicar às próximas gerações o valor da salvação em Jesus Cristo.