…e não é que Deus fala mesmo?

imagem: envato

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Sabe aqueles dias que tudo o que a gente quer é ouvir a voz de Deus? Pois é. Desde a noite anterior ele estava angustiado, demorou a pegar no sono. Tinha uma viagem a fazer logo pela manhã seguinte e, no fim do dia, algumas decisões importantes precisavam ser tomadas…ou não.

Acordou cedo, passou apressadamente um café, aqueceu um pão de queijo no micro-ondas e até se assentou na extremidade da cadeira à mesa, como quem tivesse que comer e sair correndo. Assim o fez. Já na estrada, depois da oração de rotina, enquanto jogava uma jaqueta jeans no banco traseiro, disse a si mesmo num tom presunçoso e até arrogante: Estou precisando é ouvir Deus dessa vez, já falei muito com Ele ontem, quem sabe hoje Ele finalmente me responde!

Rodou por alguns quilômetros em silêncio, pensativo. Teve a ideia de ligar o rádio numa estação cristã. Quem sabe alguém está trazendo uma mensagem de reflexão matutina e Deus fala comigo através dela? Rolou o sintonizador de um lado para o outro do dial e tudo que ouviu foram propagandas de restaurantes, anúncios imobiliários e trechos de músicas sertanejas, o que o fez desligar irritadamente o rádio e focar na rodovia. Tentava orar silenciosamente, mas a atenção era capturada por uma coisa ou outra à beira da estrada. Depois de percorrer cerca de um quarto do trecho, o motor do carro avisou que o combustível estava acabando e, coincidentemente, havia um posto de gasolina bem próximo dali. Tanque cheio, hora de reforçar o café da manhã na loja de conveniência.

Antes de entrar pelas portas de vidro que deixavam transparecer as guloseimas infantis e o freezer de sorvetes, percebeu que havia um homem assentado na calçada a alguns metros da entrada. O homem lhe cumprimentou com um sorriso um tanto quanto feliz, contrastando com a sua aparência de pobreza e cansaço. Não conseguiu sair sem incluir na sua conta um pão fresquinho e um generoso copo de café com leite, que foi entregue ao estranho, e tão logo deixou a lanchonete. O homem recebeu o pão com leite, demonstrou muita gratidão e disse com uma voz emocionada: “Eu sou um homem de sorte. Muitas vezes antes mesmo de pedir, sempre aparece alguém como você e me dá exatamente o que preciso no momento.” Ele sorriu um sorriso fugaz e logo retomou a autoestrada em grande velocidade, não sem antes checar as mensagens no celular, na expectativa, sem sucesso, de que alguém tivesse lhe enviado uma mensagem devocional, dessas extraídas de pregações ou mensagens de encorajamento filosófico.

A próxima parada antes do fim da viagem foi para usar os sanitários, efeito da garrafa de meio litro de água mineral que sempre levava na cabine e que fora sorvida com avidez após sair do posto de combustível. Depois de estacionar e caminhar cabisbaixo checando o telefone celular, quase se esbarrou numa senhora de meia idade com uma criança quase adolescente, que lhe estendiam a mão como quem já até havia decorado uma postura tantas vezes repetida. Estava frio e ele se compadeceu da menina. Voltou ao carro e pegou a jaqueta e deu à menina que a vestiu apressada e desajeitadamente, sorrindo de forma contida e extremamente satisfeita. Abriu a carteira e foi generoso com a mulher, que se conteve para não o abraçar de alegria. Tudo que ouviu dela foi um relato rápido de que a neta era muito doente e o valor que ele lhe havia dado era exatamente o que ela precisava para aviar a receita na farmácia. Ele foi constrangido pela necessidade delas e agiu como achou que todo cristão deveria fazê-lo.

Deus permanecia em silêncio durante a viagem retomada em seguida. Nenhum pensamento diferente, nenhum post interessante nas redes sociais, só a lembrança de alguns versículos bíblicos que ouvira no último culto, mas que não pareciam se encaixar com a sua angústia. Decidiu tentar o rádio novamente. Um homem de voz calma, sobre um fundo musical suave, era tudo que ele precisava naquela hora. Ele chorou de borrar a visão da rodovia, quando o homem concluía a sua pequena mensagem dizendo: “Muitas vezes saímos de casa querendo ouvir uma orientação divina e Deus prepara situações que testam a nossa fé, nossa confiança e nossa paciência na espera por respostas. Quando servimos a alguém, estamos dizendo a estas pessoas para confiarem que Deus conhece as suas necessidades e sempre prepara uma forma de supri-las. Quando nos deixamos ser usados por Ele, deveria ser uma forma de nos lembrarmos que nós, mesmo sendo maus, sabemos compartilhar bênçãos até com estranhos, quanto mais Ele que é bom, infinito em misericórdia e amor pelos seus filhos?”

Bem, o jeito que o coração daquele homem chegou ao fim da viagem, é desnecessário descrever…

 

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