Portas abertas nas fronteiras: o segredo da mala

imagem: envato

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O inverno ainda parecia morar nas paredes das construções de Varsóvia, Polônia, em 1955. Mesmo quando o frio dava uma trégua, havia no ar uma espécie de silêncio que não vinha apenas do clima. A guerra terminara havia alguns anos, mas suas marcas continuavam espalhadas pelas ruas, nos prédios reconstruídos às pressas e, sobretudo, no rosto das pessoas. Naqueles dias, um congresso mundial reunia milhares de jovens de diferentes países. Havia discursos, cânticos, conversas e bandeiras. Ele havia chegado àquele país com uma mala. Ela tinha o tamanho das malas comuns, o couro já um pouco gasto e, por fora, não trazia nenhuma inscrição que pudesse chamar a atenção de alguém. Podia conter roupas, sapatos, talvez alguns presentes. Coisas de viajante, mas carregava (e escondia) um tesouro.

Do lado de fora daquele salão de reuniões do congresso havia uma cidade que aprendera a falar baixo. Havia portas que se fechavam depressa e homens que observavam mais do que diziam. Havia uma fronteira invisível, uma cortina, atravessando toda a Europa e separando pessoas que tinham a mesma fé, mas não a mesma liberdade para professá-la.

Entre aquela multidão, ele sabia que existia uma comunidade escondida, silenciosa, além das ideologias. Uma igreja que sobrevivia sem liberdade, sem púlpitos seguros e, muitas vezes, sem aquilo que para ele parecia tão simples: uma Bíblia. Foi então que surgiu a oportunidade. Ele preparou a mala com literatura cristã e várias Bíblias, material este que, naquele lugar e naquelas circunstâncias, podiam significar muito mais do que papel e tinta. Podiam significar risco e ele tinha consciência disto.

Enquanto fechava a mala ainda no quarto, imaginou as perguntas que poderiam fazer durante o trajeto. O que havia ali? Para quem eram aqueles livros? Por que estava carregando aquilo? E se alguém resolvesse verificar o seu conteúdo? Inevitável não ficar tenso e preocupado.

No entanto, ele caminhou pelos corredores tentando parecer natural. Conversava quando precisava, sorria quando alguém o cumprimentava, mas seus olhos procuravam discretamente os homens que poderiam estar observando. Cada passo parecia uma pequena decisão. Cada porta aberta, uma possibilidade de ser descoberto. Havia medo, mas a coragem prevalecia.

Quando finalmente chegou ao local previamente estudado e sabendo que alguém o esperaria para receber a mala em silêncio, o seu coração bateu mais depressa. Por um instante, teve a sensação de que todos podiam ouvir aquelas batidas. Mas, pela enésima vez, pensou nas pessoas que receberiam aquelas páginas. Pessoas que provavelmente as leriam escondidas, à luz fraca de uma vela, atrás de portas trancadas e porões, que precisavam esconder a própria fé para continuar vivendo.

Num gesto simples ele entregou a mala. O tesouro havia atravessado uma fronteira. Não houve música, fotografia ou anúncio. Apenas uma mala passando e saindo seguramente de suas mãos, como se fosse um segredo. O medo ainda estava ali, mas agora vinha acompanhado de uma alegria difícil de explicar. Não eram apenas livros contrabandeados, era vida, esperança.

A Cortina de Ferro podia separar países, vigiar pessoas e impedir livros de atravessarem fronteiras. Mas não conseguiria impedir que uma Bíblia chegasse a alguém que precisava desesperadamente dela, que compartilharia e trocaria suas páginas, até que todos que se reuniam em segredo pudessem aprender e ouvir de Deus.

O que ele jamais imaginava é que aquele gesto, de contrabandear uma literatura banida e tão rara por aquelas bandas viesse, anos depois, a ser o marco inicial de uma missão internacionalmente conhecida e admirada, trabalhando em mais de 70 países para fortalecer a Igreja Perseguida, apoiando cristãos locais em lugares hostis, para que continuem espalhando o Evangelho ao seu redor.

Depois disto, até ascender aos lugares celestiais, estima-se que ele tenha visitado 125 países e percorrido mais de um milhão de milhas para compartilhar o Evangelho e fortalecer seus irmãos na fé. A cada vez que o gesto se repetia, em lugares remotos e correndo todos os riscos, ele voltava pra casa de mãos vazias, mas com o coração cheio de entusiasmo por continuar fazendo aquilo, dado o impacto que seu gesto sempre promovia na vida das pessoas refugiadas e anônimas.

Hoje não há barreiras diante de nós. Não precisamos esconder Bíblias, atravessar fronteiras às escondidas ou arriscar a própria liberdade para entregarmos um folheto que seja. Nosso maior obstáculo não está do lado de fora, mas dentro de nós, ocupados que estamos carregando as nossas próprias malas de preocupações, planos e necessidades, muitas vezes alheios às demandas das almas que clamam ao nosso redor.

Resta-nos pensar no que estamos fazendo com a liberdade que um dia tantos outros sonharam ter ou tantos que deram a vida para que outros a tivessem!

 Inspirada na vida de Van der Bijl, missionário holandês conhecido como Irmão André, o contrabandista de Deus.  

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