O luto também precisa ser vivido – Entrevista com Mariane Ferreira

imagem: envato

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Falar sobre luto ainda é, para muitas pessoas, entrar em um território cercado de silêncio, desconforto e frases prontas. No entanto, compreender a perda, respeitar o tempo de cada pessoa e aprender a acolher a dor são passos importantes para que o sofrimento não se transforme em isolamento. Nesta entrevista, conversamos com Mariane Ferreira, jornalista, psicanalista e tanatóloga, especialista em processo de luto. Com formação em Terapia de Reprocessamento de Traumas e Psicoteologia, pós-graduação em Assessoria de Comunicação de Crise e atualmente finalizando o curso de Psicologia, ela também é presidente do Instituto Vidar, instituição dedicada ao acolhimento de pessoas enlutadas e ao desenvolvimento humano. A sua trajetória profissional também é marcada por uma experiência pessoal profunda: a perda de sua filha Aurora, em 2016. A partir dessa vivência, Mariane passou a transformar a própria dor em conhecimento, acolhimento e esperança para outras pessoas.

  • Por que é importante viver o luto, em vez de tentar esconder a dor ou seguir a vida como se nada tivesse acontecido?

O luto é uma resposta humana à perda de alguém ou de algo significativo. Não é uma fraqueza, uma doença por definição ou algo que precise ser escondido. É uma experiência que envolve dimensões emocionais, cognitivas, físicas, sociais e, muitas vezes, espirituais. Quando tentamos silenciar a dor ou atender à expectativa de que precisamos ser fortes o tempo todo, podemos acabar nos afastando das nossas próprias necessidades emocionais. Viver o luto significa reconhecer a perda, compreender seus impactos e encontrar maneiras de integrar essa experiência à nossa história. Isso não significa sofrer o tempo inteiro, nem que todas as pessoas precisam chorar ou falar sobre a perda da mesma maneira. Cada um encontra formas diferentes de expressar sua dor. O essencial é que exista espaço para sentir, elaborar e receber apoio quando necessário.

Acolher a dor é reconhecer a realidade da perda, mas também permitir que a vida continue sendo possível. O objetivo não é apagar o que aconteceu, e sim construir uma relação com essa experiência que não impeça a pessoa de voltar a viver.

  • Existe um tempo considerado “normal” para o luto ou cada pessoa precisa encontrar o seu próprio ritmo para lidar com a perda?

Não existe um prazo universal para o luto. A experiência é influenciada pelo vínculo com quem morreu, pelas circunstâncias da perda, pela história de vida, pela rede de apoio, pelas crenças e pelos recursos emocionais de cada pessoa. Por isso, precisamos abandonar a ideia de que alguém deve estar “recuperado” em determinado número de meses ou anos. Comparar processos pode gerar culpa e sofrimento desnecessários. Ao mesmo tempo, respeitar o tempo de cada pessoa não significa considerar que ela precise permanecer sofrendo indefinidamente. Na Tanatologia, entendemos que o luto é um processo e pode ser elaborado. Isso não significa esquecer, deixar de sentir saudade ou eliminar completamente a tristeza. Significa, progressivamente, integrar a perda, reconstruir a identidade e recuperar a capacidade de investir na própria vida. Quando o sofrimento permanece muito intenso, provoca prejuízos significativos ou impede a retomada da vida cotidiana, é importante buscar avaliação profissional. Há situações em que o luto exige acompanhamento especializado. Não devemos impor um prazo para a dor, mas também não devemos transformar o sofrimento permanente em uma obrigação de amar. É possível preservar o vínculo com quem partiu e, ao mesmo tempo, voltar a experimentar alegria, propósito e novos projetos.

  • Como podemos acolher alguém enlutado sem cair em frases prontas ou tentar apressar o seu processo de recuperação?

O primeiro passo é compreender que acolher não significa encontrar a frase perfeita, mas oferecer uma presença verdadeira. Muitas vezes, tentamos diminuir a dor do outro porque não sabemos lidar com ela. Por isso, recorremos a frases como “você precisa ser forte”, “foi melhor assim” ou “pelo menos você tem outros filhos”. Mesmo quando são ditas com boa intenção, essas palavras podem fazer a pessoa se sentir incompreendida. Em vez de tentar explicar a perda ou apressar a recuperação, podemos dizer: “Sinto muito pela sua perda”, “Estou aqui com você” ou “Se quiser falar sobre essa pessoa, eu quero ouvir”. Também é importante respeitar o silêncio, reconhecer necessidades práticas e manter a presença para além dos primeiros dias, quando o apoio social muitas vezes diminui e a ausência se torna ainda mais evidente. Acolher exige escuta, disponibilidade e respeito. Não precisamos resolver a dor de alguém para sermos úteis em seu processo. Precisamos reconhecer que aquela dor existe e que a pessoa não precisa enfrentá-la sozinha. Acolher é caminhar ao lado, sem determinar o ritmo e sem retirar do outro a possibilidade de encontrar seu próprio caminho.

  • Para quem tem fé, como conciliar a confiança em Deus e a esperança da eternidade com a tristeza profunda provocada pela perda de alguém que ama?

A fé e a tristeza não são sentimentos incompatíveis. Acreditar na eternidade não elimina a dor da despedida, porque amamos pessoas com quem construímos vínculos concretos, compartilhamos experiências e desejamos continuar vivendo. Na tradição cristã, existe espaço tanto para a esperança quanto para o lamento. A própria Bíblia apresenta pessoas que choraram, questionaram e expressaram sua angústia diante da perda. Isso nos ajuda a compreender que sentir tristeza não significa ter pouca fé, assim como chorar não significa deixar de confiar em Deus.

A espiritualidade pode oferecer sentido, sustentação e esperança, mas não deve ser usada para silenciar o sofrimento. Dizer a alguém que precisa simplesmente “aceitar a vontade de Deus” ou que não deve chorar porque acredita na eternidade pode produzir culpa justamente em um momento em que essa pessoa precisa de acolhimento. Na minha própria história, a fé foi uma fonte de sustentação, mas não anulou a saudade da minha filha Aurora. Aprendi que posso confiar em Deus e, ainda assim, sentir falta dela. Posso ter esperança na eternidade e reconhecer a dor da ausência no presente. A fé não precisa nos impedir de chorar; ela pode nos ajudar a encontrar forças para continuar vivendo enquanto choramos. A esperança não invalida a saudade. Ela nos lembra que, mesmo diante da perda, a vida ainda pode guardar sentido, amor e possibilidades.

  • Em que momento a saudade começa a encontrar um novo lugar dentro de nós e a pessoa consegue seguir em frente sem sentir que está esquecendo quem partiu?

Isso acontece de maneira gradual, sem uma data exata. Em algum momento, a pessoa começa a perceber que a lembrança já não está presente apenas como fonte de sofrimento, mas também como parte de sua história, de sua identidade e dos vínculos que continuam tendo significado. A saudade não necessariamente desaparece. O que pode mudar é a maneira como nos relacionamos com ela. A perda deixa de ocupar todos os espaços da vida e passa a coexistir com novas experiências, relacionamentos, projetos e momentos de alegria. Existe uma diferença importante entre seguir em frente e deixar alguém para trás. Seguir em frente não significa abandonar a memória de quem morreu. Significa reconhecer que a morte interrompeu a presença física, mas não apaga o amor vivido nem a influência que aquela pessoa teve em nossa história.

Depois da morte da minha filha Aurora, compreendi que honrar a sua memória não significava permanecer paralisada pela dor. Também significava dar continuidade ao amor que vivemos, transformando essa história em acolhimento, conhecimento e esperança para outras pessoas. Foi dessa experiência que nasceu o trabalho que desenvolvo no Instituto Vidar. A elaboração do luto permite que a pessoa volte a investir na vida sem precisar renunciar ao vínculo afetivo com quem partiu. Ela pode sorrir sem culpa, fazer novos planos e experimentar felicidade sem que isso diminua o amor que sente. A saudade pode continuar existindo, mas não precisa impedir a vida de acontecer. Não esquecemos necessariamente quem partiu quando voltamos a viver. Podemos, inclusive, encontrar maneiras mais saudáveis de carregar essa história conosco. O amor permanece, mas a dor pode encontrar outro lugar, e a esperança pode renascer.

  • Para finalizar, que reflexão você deixaria para quem está vivendo um luto neste momento?

Com toda a minha força, rejeito a ideia de que o luto precise durar a vida inteira. O amor é o dom maior que um dia venceu a morte e, assim, também pode nos sustentar no caminho de elaboração da perda. Para quem abre o coração para receber o alívio que chega com o processo, a perseverança e a determinação, é possível encontrar um caminho de propósito. Precisamos construir uma cultura que saiba acolher a morte e respeitar o luto, sem transformar a dor em tabu nem o sofrimento em destino. Perder alguém que amamos é uma experiência que pode mudar profundamente nossa maneira de compreender a vida, mas não precisa nos condenar a viver presos à ausência. O luto precisa ser reconhecido, vivido e, quando necessário, acompanhado. Com acolhimento, conhecimento e suporte adequado, é possível elaborar a perda, ressignificar a história e recuperar a capacidade de viver. A Bíblia nos ensina que “o amor tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta”. E esse “tudo” inclui o luto, que não precisa ser maior do que o sentimento que nos une a quem partiu. Assim, é possível experimentar o novo, o renovo e a vida que Cristo tem para todos.

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