Ouvidos para ouvir, coração para obedecer

imagem: envato

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O vento soprava forte no porto quando ele chegou. O céu tinha a cor do chumbo, e as águas batiam contra as pedras, levantando uma espuma branca que se desfazia aos pés dos marinheiros. O cheiro de peixe, madeira molhada e sal impregnava o ar. Havia homens gritando, cordas sendo puxadas, mercadorias sendo arrastadas para dentro dos barcos. Tudo era indiferente ao drama de um homem que acabara de decidir fugir da ordem que recebera. Ele tomaria um destino diferente daquele que deveria tomar. Parou diante do navio. Não havia dúvidas sobre a ordem, nem engano, nem confusão. A voz fora clara: deveria ir a outra cidade não aquela para onde intentava fugir. Pagou a passagem e subiu a bordo. O navio cheirava a óleo, cordas úmidas e madeira envelhecida. As velas estalavam ao vento, e o casco rangia como se protestasse contra o peso das águas. Ele desceu ao porão, encontrou um canto escuro e deitou-se. Talvez quisesse apenas não pensar, mas adormeceu.

Quando a tempestade começou em alto mar, o céu pareceu desabar. As ondas erguiam o navio e o arremessavam contra os abismos. A água invadia o convés, as cordas escapavam das mãos, e os marinheiros gritavam uns para os outros, desesperados. O vento uivava entre os mastros, e cada estalo da madeira parecia anunciar que a catástrofe era iminente. Ele despertou do sono profundo. Encontraram-no ali, escondido, enquanto todos lutavam pela vida. E, quando descobriram que a tempestade estava ligada à sua fuga, ele próprio reconheceu o que precisava ser feito. Foi lançado ao mar. A fúria do mar se acalmou enquanto ele descia às profundezas.

Por um instante, houve apenas o choque da água gelada, o gosto salgado entrando pela boca e o corpo sendo tragado. A superfície se afastou, a luz desapareceu, e o mar fechou-se sobre ele. Então veio a sua salvação: fora tragado por uma espécie de submarino errante. Não havia beleza naquele lugar. Era escuro, úmido, sufocante. O cheiro era insuportável. Não havia horizonte, não havia porto, não havia para onde fugir. Não havia qualquer possibilidade de controlar o próprio destino. Agora, o homem que escolhera não ouvir, ficou sozinho dialogando com a voz que tentara evitar.

O tempo passou e ele não sabia se era manhã ou noite. Restavam o medo, o cansaço e a lembrança da ordem que o levara à fuga. Quando já não lhe sobravam forças para resistir e o fôlego lhe fugia, sentiu a terra firme sob seu corpo. Fora vomitado. Ele caiu sobre a areia molhada, quase inerte com dores por todo o corpo. O ar entrou-lhe nos pulmões como uma lâmina. O sol feria seus olhos, e as ondas recuaram. Foi quando ouviu novamente a voz que o enviara. Dessa vez, ele não encontrou outro navio. Levantou-se com dificuldade e reconheceu que estava perto da cidade para onde deveria ter embarcado segundo a ordem que recebera.

A cidade surgiu diante dele como uma muralha de pedra e poeira. Suas portas eram imensas, suas ruas movimentadas, seus mercados barulhentos. Havia vendedores anunciando mercadorias, animais atravessando os caminhos estreitos. O cheiro de especiarias misturava-se ao suor dos homens e à fumaça dos fornos. A cidade pulsava, negociava, ria e pecava, sem saber que um forasteiro caminhava em suas ruas com uma mensagem de condenação.

Ele andava devagar. Não queria estar ali. Aquela cidade perversa e pecaminosa era inimiga de seu povo e de suas crenças. Ele não queria anunciar o juízo e, muito menos, assistir à possibilidade de um arrependimento, pois sabia que se agissem assim, eles seriam poupados. Ele queria a destruição daquela grande cidade. Sua boca pronunciava a mensagem, mas o seu coração estava longe dali.

Mesmo assim, ele atravessou as ruas erguendo a voz diante dos habitantes. Anunciou que a cidade seria destruída. E o povo ouviu e creu, se humilhou e abandonou suas perversões. A notícia chegou ao rei, e até o trono se cobriu de luto. A cidade inteira se arrependeu, foi alcançada pela misericórdia e foi perdoada. Ele, porém, não se alegrou. Sentou-se do lado de fora da cidade, tomado pela indignação. O homem que havia sido resgatado das profundezas não conseguia suportar que outros também recebessem misericórdia…

Há fugas que não terminam quando nossos pés param de correr. Por vezes, obedecemos com o corpo enquanto o coração permanece distante. Há ordens divinas que ouvimos com tanta clareza que não podemos alegar desconhecimento, apenas resistência.

“Quem tem ouvidos, ouça”, não são palavras que falam de uma simples capacidade de escutar. Falam da disposição de se render à voz de comando, porque o perigo maior não está em não ouvir, mas em ouvir, compreender e, ainda assim, escolher outro caminho. Quantas vezes também precisamos ser despertados? Não porque Deus tenha deixado de falar, mas porque nos acostumamos a ouvir sem obedecer. Queremos as promessas, mas resistimos às ordens, rejeitamos a correção. Aceitemos de bom grado as ordenanças e obedeçamos de coração. Esta é, muitas vezes, a única forma de contemplarmos a misericórdia e triunfar sobre o juízo.

Inspirada na jornada do Profeta Jonas.

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