Corações divididos

imagem: envato

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O céu havia aprendido a permanecer fechado. Durante três anos, nenhuma nuvem ousou atravessar o horizonte. A terra endureceu como barro esquecido ao sol. Os rios emagreceram até virar cicatrizes de poeira. O vento carregava sementes mortas, e os rebanhos caminhavam sem força, como se procurassem em silêncio uma água que já não existia. Mas a pior seca não era aquela que se manifestava na natureza, mas aquela que se instalara no coração daquele povo.

Aquela nação não havia abandonado completamente ao seu Deus. Esse era o problema. Se tivessem rompido de vez, talvez em um dado momento de sua história tivessem a oportunidade de um confronto espiritual que os reconectasse numa forma mais profunda de conversão, porém escolheram o caminho mais confortável e mais perigoso: dividir a devoção. Um pouco de um Deus para a consciência religiosa, um pouco de outro ídolo para garantir prosperidade. Um altar para a fé, outro para a conveniência.

Queriam os céus sem renunciar aos ídolos. Foi assim que a nação começou a secar por dentro antes de secar por fora. Naquele monte, o povo se reuniu diante do profeta como quem assiste a um julgamento inevitável. De um lado, os profetas do deus pagão gritavam até a exaustão. Cortavam a própria pele, dançavam, imploravam por uma resposta retumbante. Do outro lado, um único homem, de coração íntegro em sua fé, permanecia de pé diante de um altar quebrado. Foi quando fez a pergunta que atravessaria os séculos: “Até quando vocês caminharão mancando tentando se equilibrar entre dois pensamentos?” Não era apenas uma repreensão espiritual, era um diagnóstico.

O povo mancava entre verdades opostas, entre convicção e conveniência, titubeava entre aquilo que dizia crer e aquilo que realmente adorava. Agora era o momento de decidir a que governo se submeter. Por mais que, ao longo de sua história, aquele povo de dura cerviz já tivesse testemunhos suficientes de quem realmente era o seu Deus, tinham, uma vez mais, a oportunidade, através do profeta, de assistir à uma revelação triunfante que dissiparia qualquer dúvida de seu poder e autoridade. Depois de tudo, caberia ao povo a decisão sobre a quem realmente invocar para receberem o milagre da bonança, da chuva, da fertilidade do chão.

Talvez a humanidade, ao longo da história, nunca tenha sido tão parecida com aquele povo como nos dias de hoje. Vivemos num tempo de opiniões provisórias, das convicções descartáveis e das fidelidades temporárias. As pessoas querem todas as possibilidades abertas, todos os caminhos disponíveis, todas as portas entreabertas. Preferem não decidir para não perder opções. Chamam isso de liberdade, quando muitas vezes é apenas medo de compromisso. Assim como aquela nação dividida, muita gente quer exercer fé sem renúncia, verdade sem confronto, espiritualidade sem entrega. Na verdade, as pessoas, muitas vezes constroem dois altares e esperamos que o céu aceite a duplicidade do coração. Como aconteceu com aquele povo, corações divididos acabaram por se tornarem estéreis.

Nenhuma nação morre primeiro nas ruas, antes, morre nos valores. Nenhuma família desmorona apenas por crises externas, mas após verdades ou princípios serem abandonados silenciosamente dentro de casa. Naquela nação de coração dúbio, nenhuma alma se perdeu de repente, mas quando começou a negociar suas convicções. Naquele monte, antes do fogo cair, o profeta reconstruiu o altar. Na verdade, o problema nunca foi apenas a ausência de chuva, mas de definição.

A seca do nosso tempo é marcada pelos mesmos motivos: há pessoas cercadas de informação, mas vazias de direção, cheias de discursos bem elaborados, mas pobres de convicção. Hoje, desde crianças a adultos, muitas são as telas, as vozes, as escolhas. Todavia, o que se percebe é um flagrante incapacidade de responder sobre quem realmente governa suas vidas. Naquele monte, naquele dia, para quem quisesse ver e ouvir, o Deus verdadeiro respondeu de forma inequívoca sobre a quem deviam obedecer. Ainda hoje, o céu continua esperando a mesma coisa: uma decisão em cada coração dividido.

A razão dessa urgência se apoia no fato incontestável: ninguém consegue caminhar na corda bamba ou em cima do muro por muito tempo. Uma alma mancando nestes limites tênues acabará por despencar de suas alturas e causar a si mesma uma retumbante ruína.

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