Você já se fez essa pergunta em algum momento da sua vida? Em meio à rotina, às responsabilidades e às demandas que nunca cessam, é fácil se acostumar a cuidar de todos e, sem perceber, deixar de cuidar de si. Mas, em algum ponto da caminhada, essa pergunta precisa ser feita com honestidade: quem tem cuidado de você?
Desde a minha infância, uma dúvida me acompanhava. Uma pergunta cuja resposta só chegaria bem mais tarde. Eu observava o cuidado da minha mãe comigo, com meus irmãos e com meu pai. Ela era a primeira a acordar e a última a dormir, sempre com tudo pronto, sempre disponível. E algo sempre vinha à minha mente: minha mãe cuida de todo mundo, mas quem cuida dela?
O tempo passou, eu cresci, mas a minha mãe continuava como se fosse uma máquina, em movimento automático. Ela não parecia pensar para agir, apenas fazia, como um robô. E, durante muito tempo, já na vida adulta, percebi que eu também estava assim: vivendo no automático. E sei que essa é a realidade da maioria das mulheres, especialmente das mães.
Vivemos em uma sociedade que valoriza a produtividade, a entrega e a capacidade de dar conta de tudo. Nesse cenário, mães, líderes e profissionais assumem, diariamente, o papel de sustentação da casa, da família, do trabalho e das relações. São elas que organizam, antecipam, resolvem e acolhem. Mas a pergunta continua ecoando: quem cuida de quem cuida?
O acúmulo de responsabilidades não é apenas físico. Ele é emocional, mental e, muitas vezes, invisível. É o cansaço que não aparece nas fotos do Instagram, a sobrecarga que não cabe na agenda, a pressão constante de corresponder às expectativas internas e externas. É o desgaste silencioso de estar sempre disponível, de nunca dizer não, de não se priorizar, de estar sempre atenta e pronta, muitas vezes carregando culpas que sequer foram elaboradas.
Do ponto de vista psicológico, quando alguém se coloca constantemente no lugar de quem sustenta tudo, sem espaço para pausas, o esgotamento acontece de forma progressiva. Não é de um dia para o outro, é sutil. Vai se acumulando nas pequenas renúncias: no descanso adiado, no autocuidado negligenciado, nas emoções ignoradas. Até que o corpo sinaliza, a mente se cansa e a paciência diminui. Aquilo que antes era feito com presença passa a ser feito no automático. A verdade é que cuidar do outro exige energia emocional, e essa energia precisa ser renovada.
Por isso, o autoconhecimento é essencial. O autocuidado não é luxo, nem egoísmo, é manutenção, é saúde, é continuidade. É reconhecer que cuidar de si também precisa ser uma escolha consciente. Buscar redes de apoio não é fraqueza. Ter um tempo só para você não é exagero. Viajar sem os filhos, quando possível, também pode ser uma expressão de amor próprio.
Talvez você ainda não consiga fazer tudo isso, e está tudo bem. Isso também é um processo. O convite aqui não é mudar tudo de uma vez, mas começar a se incluir na própria rotina. Perguntar-se, com honestidade: onde eu estou nisso tudo? Como eu me sinto? O que me faz bem? Porque, no fim das contas, a pergunta continua, e precisa ser respondida.
Quem cuida de quem cuida?
Que, a partir de hoje, essa resposta também inclua você. Que você se permita ser cuidada, acolhida e restaurada. Porque só permanece de pé quem também aprende a se sustentar, e a se permitir ser sustentada.