Uma página virada

imagem: envato

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Eu ainda não estou acostumado com tanta gentileza, tantos abraços fraternos e tantos sorrisos, mas estou me sentindo absolutamente acolhido. Tudo ainda é muito novo para mim, pois fazem apenas quinze dias que entrei neste lugar pela primeira vez. Antes de começar a celebração, fico aqui sentado acariciando o baixo relevo dourado da capa da Bíblia que ganhei e retribuindo o sorriso daqueles que me cumprimentam ao passarem pelo corredor, procurando lugares para se sentarem. Minha mente viaja quando vejo uma mulher que sorri e acena do outro lado, parecendo ansiosa para ocupar os primeiros lugares. Olhando por sobre meu próprio ombro, vejo o homem que entrou aqui junto comigo pela primeira vez, já assentado, penteado, barba feita, roupa alinhada. Impossível não lembrar, em poucos minutos, como em um filme que não mente, o que nos trouxe a este lugar.

Eu estava contemplando as luzes do Natal passado, à porta de um supermercado que começava a fechar as portas, planejando cada detalhe da minha invasão.

Não tinha como dar errado. Fiquei indo e vindo na calçada do outro lado da rua, tentando despistar de possíveis câmeras de segurança, um tanto quanto nervoso, ocultando a arma no bolso da jaqueta. Estava frio e poucos transeuntes circulavam naquela hora. De repente, um homem surge dobrando a esquina e, se aproximando, me olhou de frente, segurou o meu braço firmemente e disse, sem tirar os olhos dos meus: “Não sei o que está pensando em fazer, mas estou disposto a te dar o mesmo valor em dinheiro para você desistir e vir comigo”. Era quase meia noite. Claro que hesitei, mas, fosse o que fosse, seria melhor do que assaltar o supermercado e correr o risco de ser preso em flagrante. Eu respirei fundo, titubeei, mas concordei.

Duas quadras à frente, enquanto eu seguia seus passos firmes, ele virou e pediu que eu o esperasse ali. Seria rápido, disse. Atravessou a rua e logo abordou uma mulher que se vestia como prostituta, cuja maquiagem pesada parecia tentar esconder a sua verdadeira identidade. Ela estava escorada em uma placa de trânsito e vi quando ela apagou com o salto pontiagudo da sandália, o que restava de seu cigarro. Enquanto ele falava com ela, ela tirou um chiclete da bolsa e o mascava de forma debochada, mas, à medida que ele falava e gesticulava, sua postura foi se acalmando. Logo estávamos os dois ali, lado a lado na calçada, seguindo aquele homem em silêncio.

No trajeto, ele fez sinal para outro homem, o mesmo que agora vejo ali sentado, completamente diferente. Na ocasião, ele foi abordado tentando se ajeitar em caixas de papelão junto ao muro pichado com palavras de ordem contra o sistema, debaixo de uma árvore frondosa, num beco escuro.

Hoje estamos os três aqui. A mulher que vejo hoje nem de longe lembra a que vi naquele dia, pelas roupas, pela maquiagem leve, pelo sorriso de quem parece estar feliz. O culto já vai começar. Um homem está à frente, saudando alegremente todos os presentes e ajeitando a correia do violão em volta do pescoço, tentando não se afastar do microfone. Era o Pastor. O mesmo homem que, corajosamente naquela véspera de Natal, beijou a esposa e suas crianças em casa e saiu sozinho para celebrar uma Ceia especial. Enquanto quase todos os membros estavam com suas famílias, ele abriu mão de sua comunhão familiar para recrutar, antes da meia noite, quem encontrasse vulnerável pela rua, oferecendo uma recompensa equivalente em dinheiro, para quem trocasse seu ofício pecaminoso por uma reunião na Igreja naquela hora da noite. Segundo eu soube depois, a conversa com a mulher havia sido mais difícil. Ele ofereceu pagar o preço de seu programa, para que ela o seguisse.

Naquela noite memorável, foram muitos os convidados. Quando chegamos à Igreja, já havia mais de uma dezena de pessoas, umas sentadas conversando, outras um tanto quanto inquietas, pensando em desistir e voltar para a noite. Quando a ceia foi servida, de repente estavam juntos à mesa improvisada, um time absolutamente impensável: prostitutas, travestis, homens maltrapilhos e malcheirosos, homens com tornozeleiras eletrônicas e dois adolescentes esfomeados, que pareciam não comer há dias. De todos aqueles, apenas nós três continuamos a vir.

Abro minha Bíblia e retiro um panfleto que recebi dias atrás, sobre a Campanha do Projeto de Vida para o Ano Novo. Respiro profunda e emocionadamente, ao ver e tentar cantar a letra da canção projetada no telão, a qual o Pastor entoa a plenos pulmões. O som melodioso parece vir acariciar os meus olhos marejados: “Dá-me um coração igual ao Teu, Meu Mestre…”

Pela primeira vez na minha vida, um ano realmente novo, uma página virada e novas páginas de vida em branco esperando para serem escritas.

Bem como outra música que aprendi por aqui: “Uma nova história Deus tem pra mim…”

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