Durante muitos anos, vivi como alguém que o mundo havia esquecido. Quando eu era uma criança, uma queda mudou a minha vida para sempre. Meus pés nunca mais sustentaram o meu corpo de pé como antes. Cresci vendo os outros correrem enquanto eu aprendia a depender da ajuda alheia para os gestos mais simples. A deficiência, porém, não era o que mais pesava sobre mim. O que realmente me consumia era a sensação de ter me tornado apenas uma lembrança distante de uma família derrotada. Meu avô tinha sido um rei e meu pai um príncipe. Em outros tempos, eles inspiravam respeito pelas vitórias em batalhas. Os anos passaram, as batalhas terminaram, e eu fui me recolhendo à sombra de uma história que já não parecia interessar a ninguém. Acabei sendo praticamente exilado num vilarejo remoto e pobre, um lugar de nome áspero e horizonte seco. As manhãs nasciam silenciosas. O vento levantava a poeira das estradas, e os dias pareciam iguais uns aos outros. Ali, aprendi a esperar pouco da vida, a não ter expectativas, vivendo de sombras do passado e dos comentários que eu ouvia sobre as glórias de meus antepassados.
Um dia, porém, fui surpreendido com uma notícia que mudou pra sempre a minha vida. Mensageiros do novo rei viriam me buscar. Meu coração disparou. Por que o rei se lembraria de mim? Durante toda a viagem, minha mente procurou respostas. Talvez fosse um acerto de contas. Talvez eu estivesse sendo chamado para responder pelos erros de uma família que já nem mais existia. Quanto mais me aproximava do palácio, mais pesado parecia o ar que eu respirava. De repente eu estava sendo levado entre muros imponentes, de pedras claras refletindo a luz do sol. Em meio ao movimento dos servos pelos corredores eu me sentia pequeno, muito pequeno, insignificante até.
Quando finalmente fui conduzido à presença do rei, me apressei em curvar-me diante de seu trono e, cabisbaixo e apreensivo, esperei pelo desfecho, pelas palavras que sairiam daqueles lábios. Eu não entendia porque estava ali e me sentia, ao mesmo tempo, maravilhado, envergonhado e temeroso. Todavia, não ouvi acusação alguma. Ouvi o meu nome. E ouvi algo que jamais imaginei escutar. O Rei me disse que desejava usar de bondade para comigo por causa de meu pai. Por um instante, o tempo pareceu parar, fiquei sem reação.
Na verdade, eu já sabia da amizade que os dois haviam construído na juventude. Sabia dos perigos que enfrentaram juntos, das promessas que fizeram um ao outro e da lealdade que os uniu. O que eu não sabia era que uma amizade pudesse sobreviver tantos anos e que a amizade deles pudesse continuar produzindo gestos de amor, mesmo depois de meu pai ter partido pra sempre. Naquele dia, o rei devolveu as terras que pertenciam à minha família, me resgatando do esquecimento, da pobreza, do abandono. Todavia, esse gesto não era ainda o maior presente. Ele me disse que eu comeria à sua mesa todos os dias, não como um estranho, não como um peso por minha deficiência física, nem como alguém digno de pena, mas como se fosse o seu próprio filho.
Muitas vezes, enquanto era levado à mesa para as refeições no palácio, pensava em meu pai. Como ele certamente teria gostado de presenciar tudo aquilo! Sua voz havia se calado há muito tempo, ainda assim, sua amizade continuava viva, sua história continuava pulsante.
Além da honra de me assentar à mesa do Rei e de desfrutar de todas as benesses de sua generosa mão, tive a oportunidade de aprender muito sobre a vida, sobre valores, sobre honra e sobre aliança. Hoje sei que as verdadeiras amizades não terminam quando os amigos se separam, nem quando a distância cresce. Elas permanecem produzindo frutos em vidas que talvez nunca tenham participado da história original. Eu, por exemplo, fui alcançado pela bondade de uma amizade da qual nem sequer participei. Sempre que me perguntam sobre o que mais me marcou em toda essa experiência, não hesito em responder, com o coração emocionado e grato: existem amigos tão verdadeiros que a sua influência continua produzindo frutos, mesmo depois que já partiram desta vida, como uma melodia que continua ecoando por muitas gerações, mesmo depois que o instrumento para de tocar.
Baseado na história de Mefibosete. (2 Samuel 4/9)