“Entretanto, se alguns ramos foram cortados, e você, sendo oliveira brava, foi enxertado entre os outros e agora se tornou participante da raiz e da seiva da oliveira, não se considere superior a esses ramos. Se o fizer, saiba que não é você quem sustenta a raiz, mas é a raiz que sustenta você.” (Romanos 11:17-18 | NVI).
Quando o apóstolo Paulo utiliza a imagem de uma oliveira para falar sobre a nossa relação com Deus, ele nos apresenta uma verdade fundamental: somos ramos que foram enxertados e que, por isso, passaram a participar da raiz e da seiva que lhes dão vida. Não somos nós que sustentamos a raiz; somos sustentados por ela. Essa imagem nos ajuda a compreender a graça, o pertencimento e, principalmente, a dependência que marcam a nossa caminhada com Deus.
Para nossa reflexão e melhor compreensão do texto em que Paulo utiliza a metáfora do enxerto ou da enxertia, precisamos entender o que é esse processo. A enxertia é a técnica de unir uma parte de uma planta, o enxerto ou “garfo”, a outra planta já enraizada, o porta-enxerto ou “cavalo”, fazendo com que os tecidos se unam e passem a crescer como um único indivíduo. O objetivo geralmente é combinar as melhores características de cada parte, por exemplo, a resistência das raízes de uma variedade com a qualidade dos frutos de outra.
No processo de enxertia, o galho enxertado não tem vida independente da planta que o recebe. Ele pode até parecer, à primeira vista, um ramo qualquer entre os outros, mas sua permanência ali depende inteiramente da união com o tecido vivo da planta, por onde circula a seiva. Sem esse contato, sem essa dependência constante, o ramo simplesmente murcha.
É exatamente essa a lição espiritual que Paulo quer que compreendamos. A nossa identidade como filhos e filhas de Deus não nasce do mérito, do esforço ou da linhagem humana. Ela nasce de termos sido enxertados, pela graça, em uma história que já estava em andamento muito antes de nós. A raiz representa aquilo que sustenta essa história: Deus, sua aliança e suas promessas. É Ele quem nos sustenta, nos alimenta e nos dá condições de frutificar. Isso muda a forma como entendemos a nossa fé: ela não é uma conquista; é um lugar que nos foi concedido pela graça.
É interessante notar que o processo de enxertia busca combinar características de ambas as plantas. Porém, quando aplicamos essa imagem à nossa realidade espiritual, percebemos que não há, em nós mesmos, nada que torne a obra de Deus melhor ou que faça com que Ele dependa de nossas qualidades.
O que percebemos, entretanto, é que, ao sermos enxertados em uma raiz saudável, somos alcançados por uma nova fonte de vida. A seiva que vem da raiz sustenta o ramo e, espiritualmente, a graça de Deus produz em nós uma transformação excepcional. Estudando o processo da enxertia, alguns fatores são importantes para que o procedimento tenha os resultados desejados:
- Compatibilidade genética entre porta-enxerto e enxerto – geralmente da mesma espécie ou de espécies próximas, somos recebidos por Deus como filhos por adoção. Não pertencíamos naturalmente à família da aliança, mas, pela graça, fomos feitos participantes dela.
- Contato adequado entre os câmbios – quanto maior e mais preciso o contato, melhores são as condições para a união. Da mesma forma, quanto mais próximos estivermos de Deus e dispostos a permanecer n’Ele, mais seremos transformados à Sua semelhança.
- Material saudável e vigoroso – sem doenças ou pragas, pois Ele é perfeito. Quando permanecemos ligados a Ele e recebemos aquilo que vem de Sua presença, somos transformados dia após dia. Aquilo que traz problemas e impede o nosso crescimento é exposto e tratado por Deus.
- Época certa – geralmente durante a estação de crescimento, há um tempo para cada transformação pela qual precisamos passar, e Deus, em sua soberania, conduz cada uma delas no tempo adequado.
- Ferramentas afiadas e limpas – para cortes precisos e sem esmagar os tecidos, os cortes certamente acontecerão em nossa caminhada, mas aquele que os permite e conduz é perfeito, fiel e justo. Nem todo corte significa abandono; muitas vezes, é parte do processo de transformação.
- Umidade adequada no ponto de união – a união precisa ser preservada para que o enxerto sobreviva. Da mesma forma, a nossa permanência em Deus exige dependência contínua. É a graça de Cristo que nos sustenta e nos guarda em meio aos fatores externos que poderiam nos enfraquecer.
- Rapidez na execução – para que o corte permaneça exposto pelo menor tempo possível, ou seja, quanto mais nos rendemos à ação de Deus, mais deixamos que Ele trabalhe em nós. Isso significa abrir mão de nós mesmos, tomar a nossa cruz e segui-Lo.
Ao compreendermos melhor esse processo, a imagem de estarmos enxertados na oliveira ganha ainda mais significado. Tudo depende d’Ele. No processo físico da enxertia, ambas as partes precisam apresentar condições adequadas para que haja união e crescimento. Mas, quando trazemos essa imagem para a nossa realidade em Cristo, algo extraordinário acontece: nossas limitações e defeitos não contaminam a perfeição d’Ele. Pelo contrário, somos nós que somos transformados por aquilo que recebemos d’Ele. Somos paulatinamente transformados por Sua perfeição, graça e amor.
Por isso, estar enxertado significa reconhecer de onde vem aquilo que nos mantém vivos. Significa entender que pertencemos, que fomos alcançados pela graça e que precisamos permanecer ligados à fonte que nos sustenta. E, quanto mais parecidos com Ele nos tornamos, mais compreendemos que pertencemos a Ele.
O ramo não sustenta a raiz. É a raiz que sustenta o ramo. Essa talvez seja a verdade que melhor resume o que significa estar enxertado na oliveira. Não permanecemos porque somos fortes o suficiente, nem frutificamos por nossa própria capacidade. Permanecemos porque existe uma raiz que nos sustenta e uma seiva que nos alimenta.
Portanto, a nossa existência tem um propósito: glorificá-lo e adorá-lo para sempre. E somente permanecendo ligados à verdadeira fonte de vida podemos permanecer firmes e produzir frutos que glorifiquem a Deus.