Neste Setembro Amarelo, somos convidados a olhar com mais atenção para aquilo que nem sempre aparece por fora. Falar sobre saúde mental também é falar sobre escuta, acolhimento, prevenção e sobre a importância de pedir ajuda antes de chegar ao limite. Para aprofundar essa conversa, entrevistamos Cinthya Thatiana M. Farias de Morais, Psicóloga e Neuropsicóloga. Nesta entrevista, ela nos ajuda a reconhecer sinais de sofrimento emocional, compreender quando buscar ajuda profissional e refletir sobre como podemos construir relações mais atentas, humanas e cuidadosas. Confira a entrevista:
- Quando falamos em saúde emocional, quais sinais do cotidiano podem indicar que algo por dentro já não está bem e precisa de atenção?
Nem sempre o sofrimento emocional chega de forma evidente. Muitas vezes, ele aparece em pequenas mudanças no cotidiano: cansaço que parece não passar, dificuldade para dormir ou insônia, alterações no apetite, irritabilidade, dificuldade de atenção e concentração, esquecimentos frequentes, perda de interesse por coisas que antes eram prazerosas, vontade de se isolar ou uma sensação persistente de desânimo e sobrecarga. Em períodos de maior ansiedade, estresse ou sobrecarga emocional, a pessoa também pode ficar mais dispersa e ter dificuldade para organizar os pensamentos. Isso não significa, por si só, que exista um problema específico, mas pode ser uma maneira de o corpo e a mente sinalizarem que algo precisa ser olhado com mais cuidado. Reconhecer isso pode ser o primeiro movimento de cuidado.
- Por que alguém pode parecer bem por fora e, ainda assim, enfrentar um grande sofrimento emocional? O que familiares e amigos podem observar além das aparências?
Nem todo sofrimento é visível. Algumas pessoas continuam trabalhando, estudando, sorrindo, cuidando da família e cumprindo suas responsabilidades mesmo estando emocionalmente muito fragilizadas. Há quem tenha dificuldade de falar sobre o que sente, medo de preocupar os outros ou tenha aprendido que precisa dar conta de tudo sozinho. Por isso, não podemos medir o sofrimento apenas pela aparência. Mais do que procurar sinais isolados, familiares e amigos podem observar mudanças importantes na maneira habitual daquela pessoa ser e se relacionar, como afastamento, perda de interesse, alterações significativas de humor, abandono do autocuidado, falas recorrentes de desesperança ou a sensação de que a vida perdeu o sentido.
- Como diferenciar uma fase difícil de um momento em que buscar ajuda profissional se torna importante?
Todos nós atravessamos momentos difíceis. Lutos, separações, conflitos, mudanças, perdas e frustrações podem provocar tristeza, ansiedade, insegurança e sofrimento, e essas emoções não precisam ser imediatamente patologizadas. A ajuda profissional se torna especialmente importante quando a pessoa percebe que aquilo que está vivendo está difícil demais para sustentar sozinha, quando o sofrimento persiste ou se intensifica ou começa a comprometer atividades cotidianas, relações, trabalho, estudos, sono ou autocuidado. Também merecem atenção mudanças persistentes de comportamento, como isolamento, perda significativa de interesse pelas atividades habituais, desesperança, alterações acentuadas de humor ou falas relacionadas à morte e ao desejo de não estar mais aqui. Essas manifestações não devem ser minimizadas ou interpretadas como “drama”, “fraqueza” ou tentativa de chamar atenção.
- Como acolher alguém emocionalmente fragilizado sem minimizar a sua dor ou tentar oferecer respostas prontas?
Acolher começa, muitas vezes, por resistir à necessidade de resolver. Quando alguém nos conta que está sofrendo, é comum querermos imediatamente oferecer uma solução ou um conselho. Mas nem sempre é disso que a pessoa precisa naquele momento. Frases como “você precisa ser forte”, “pense positivo”, “tem gente passando por coisa pior” ou “isso vai passar” podem ser ditas com boa intenção, mas acabam diminuindo uma experiência que, para aquela pessoa, é real e dolorosa. Podemos oferecer algo simples e muito valioso: presença. Escutar sem julgamento, demonstrar interesse verdadeiro, perguntar como podemos ajudar e respeitar o tempo daquela pessoa. Às vezes, dizer “eu talvez não saiba exatamente o que dizer, mas estou aqui para te ouvir” é muito mais acolhedor do que tentar encontrar a frase perfeita. Quando percebemos um sofrimento intenso, também podemos incentivar a busca por ajuda profissional e nos oferecer para ajudar nesse primeiro passo.
- Neste Setembro Amarelo, qual reflexão considera essencial para construirmos uma cultura em que cuidar da saúde emocional e pedir ajuda sejam vistos com mais naturalidade?
Acredito que uma reflexão essencial seja compreender que ninguém deveria precisar chegar ao limite para sentir que tem o direito de ser cuidado. Vivemos em uma sociedade capitalista, marcada por uma cultura que valoriza muito a produtividade, o desempenho e a capacidade de “dar conta”. Desde cedo, aprendemos a valorizar aquilo que produzimos, conquistamos e entregamos. Em meio a tantas exigências, muitas vezes deixamos para depois algo fundamental: perceber como estamos, reconhecer os nossos limites, descansar e cuidar da saúde emocional. Os dados sobre saúde mental reforçam a importância dessa reflexão. Estimativas divulgadas pela Organização Mundial da Saúde já apontaram uma prevalência importante de transtornos de ansiedade e depressão entre brasileiros. Mas precisamos olhar além dos números. Por trás de cada estatística existe uma pessoa, uma história, relações, perdas, expectativas e maneiras muito particulares de vivenciar o sofrimento. Precisamos nos perguntar com mais frequência: como estamos vivendo? Além disso, precisamos desconstruir a ideia de que pedir ajuda é sinal de fraqueza. Pedir ajuda pode ser justamente um movimento de reconhecimento dos próprios limites e de cuidado consigo.
O Setembro Amarelo abre espaço para essa conversa, mas saúde mental e prevenção não pertencem somente ao mês de setembro. O cuidado precisa acontecer de janeiro a janeiro: na escuta sem julgamento, no fortalecimento dos vínculos, no acesso aos serviços de saúde e na construção de espaços em que as pessoas possam falar sobre seu sofrimento sem medo de serem diminuídas ou silenciadas.