Quer saber de um detalhe?

imagem: envato

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Ela não lembrava quando tinha começado a prestar atenção demais às coisas pequenas. Talvez fosse uma metodologia na sua formação de bibliotecária, talvez o marasmo da rotina daquela biblioteca pequena do interior, que só se movimentava quando uma turma inteira vinha da escola municipal. O fato é que, com o tempo, os livros passaram a lhe falar mais pelos detalhes do que pelas próprias histórias. Virou quase uma obsessão encontrar minucias em exemplares, principalmente os mais antigos.

Naquela manhã de terça-feira, a biblioteca estava como quase sempre: o ar levemente empoeirado, o ranger contido das cadeiras, o relógio redondo marcando um tempo que parecia não avançar. Ela organizava uma doação recente, isto é,  caixas  de livros herdados de alguém que talvez quisesse desentulhar suas velharias entregues quase às traças. A maioria era previsível: romances gastos, enciclopédias ultrapassadas, capas duras com títulos dourados já opacos.

Foi então que um volume discreto chamou a sua atenção. Nada de especial à primeira vista. Capa simples, lombada escurecida pelo sol. Um clássico conhecido, desses que existem aos milhares. Ela o abriu mais por hábito do que por curiosidade. Como era afeita a detalhes, ao ler a folha de rosto, percebeu que algo não se encaixava.

O ano de edição estava correto. A editora também. Mas o número da tiragem, um pequeno algarismo romano, não correspondia àquele período. Ela fechou o livro, pensou, abriu de novo. Aproximou o rosto, observou melhor, ficou intrigada. Conferiu com outro exemplar da estante e um catálogo antigo esquecido numa gaveta, já substituído por catálogos repaginados online. O erro persistia. Ou talvez não fosse erro.

Ao longo da tarde, enquanto o sol se movia lentamente pelas janelas altas, ela esqueceu até o horário. Comparou fontes tipográficas, analisou o papel, a costura da encadernação. Tudo apontava para uma conclusão improvável: aquele livro não era uma reedição comum. Bingo! Tratava-se de uma impressão experimental, produzida antes da versão oficialmente reconhecida, uma edição que os registros diziam nunca ter chegado às bibliotecas.

Seu chefe ouviu a história, um tanto incrédulo. Logo um especialista da Universidade foi convidado a checar com acurácia a autenticidade do livro. Ele ficou em silêncio, virando as páginas com carinho e cuidado até excessivo. Só então, no meio de um sorriso maravilhado, fez brotar as exuberantes  palavras: Único! Raríssimo! Valiosíssimo!

A bibliotecária observava tudo com serenidade. Para ela,  acostumada a ver detalhes mudando histórias, sentiu-se recompensada e orgulhosa de sua própria mania! Apenas um número fora do lugar, aliado ao olhar atento de quem o  observava e decifrava, desencadeou tudo aquilo. O livro foi catalogado novamente, ganhou uma caixa especial, passou a ser citado em artigos e muitos intelectuais vieram de longe para conhecê-lo.

Em tempos de tanta turbulência ao nosso redor, tanta informação, tanto ir e vir, tanta gente na multidão, tanta coisa pra ouvir, ver, ler e aprender, peçamos a Deus sabedoria, paciência, e sobretudo um olhar atento e sensível.

Que este olhar esteja sempre apto a distinguir no todo, o detalhe que pode desencadear uma mudança necessária, talvez um negócio bem sucedido e, na certa, uma tomada de decisão que nos leve a uma conquista memorável.

Que seja um detalhe pequeno como um grão de mostarda, mas que, pelo exercício da fé, traga à existência uma árvore frondosa e frutífera!

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