Quando as pessoas pronunciam o meu nome, sempre pensam na música, nas composições, nos concertos e trilhas musicais conhecidas mundo afora. Muitos acreditam que minha arte só foi possível porque nasci com um dom extraordinário. Eu jamais negaria o talento que Deus me concedeu, mas também jamais poderia deixar de reconhecer que esse dom talvez nunca tivesse florescido da mesma forma sem a presença constante de meu pai. Ele, um excelente violinista, foi a primeira pessoa que me ensinou que talento, por si só, não basta. Antes mesmo de eu compreender o significado da palavra disciplina, ele já me ensinava que cada nota precisava ser executada com precisão e que cada erro deveria servir de aprendizado, nunca permitindo que os elogios que eu recebia alimentassem a minha vaidade.
Tive uma educação rigorosa e, como toda criança e adolescente inquieta, fui muitas vezes corrigido severamente. Nestas ocasiões, eu não entendia como um pai podia alternar momentos de tanta ternura e momentos de intenso rigor. Fui entender bem tarde que tudo isso era cuidado, com um pastor que usa o cajado para puxar a sua ovelha titubeante de volta pro rebanho e, ao mesmo tempo, para direcioná-la às fontes de águas. No que se refere ao às minhas habilidades como músico, meu pai costumava dizer que o verdadeiro artista deve servir à música, e não se servir dela para alimentar o próprio orgulho.
Meu pai não apenas me ensinava a tocar um instrumento, me ensinava a ouvir, a sentir e a compreender a beleza que existia por trás de cada acorde. Foi ele próprio quem ministrou a mim um sólido e amplo treinamento musical, organizou e promoveu a minha carreira e enfim, imprimiu a sua marca em meus pensamentos e escolhas.
Um dia ele decidiu que eu precisava conhecer o mundo, me levando a me apresentar para a realeza europeia, maravilhando a todos com meu talento precoce. Ainda criança, viajei por inúmeros países, conheci palácios magníficos, igrejas grandiosas e músicos extraordinários. Ele sempre pedia que prestasse atenção às pessoas, às diferentes formas de fazer música, às culturas e aos costumes. Muitas vezes a minha desatenção ou distração leviana me custava reprimendas e castigos, mas era sua forma de me ajudar a ser quem me tornei.
Na verdade, na adolescência, o nosso relacionamento se tornou muito tenso e problemático, devido à sua personalidade controladora. Afinal, comecei a compor aos cinco anos de idade quando já era competente nos instrumentos como teclado e violino. Ele entendia que a forma de me direcionar, era controlando e guiando os meus passos, muitas vezes de forma austera e firme. Ele próprio preparava cada apresentação com extremo cuidado e corrigia minhas falhas após cada execução, mas nunca me disse que eu era perfeito, me fazendo acreditar que sempre havia como melhorar, ter algo novo para aprender.
Com o passar dos anos, naturalmente desejei trilhar os meus próprios caminhos. Eu queria tomar decisões sozinho, experimentar novas ideias e conquistar a minha independência. Meu pai, por amor, temia que minhas escolhas me afastassem do caminho que ele acreditava ser o melhor. Hoje compreendo que sua insistência jamais nasceu do desejo de controlar a minha vida, mas do receio de ver desperdiçado aquilo que ele havia ajudado a construir com tanto zelo.
Somente depois de muitos anos compreendi que meu pai nunca desejou que eu fosse uma cópia dele, mas que seu maior desejo era que eu me tornasse a melhor versão de mim mesmo. Se algum mérito existe em minha trajetória, ele não pertence apenas a mim. Minhas composições nasceram de minha inspiração, mas meu caráter foi moldado pelas mãos firmes e sábias de meu pai. Foi ele quem me ensinou que a excelência exige dedicação, que o sucesso não justifica a arrogância e que o conhecimento nunca termina. Quando procuram descobrir o segredo de meu êxito, dou uma resposta muito simples: Meu pai acreditou em mim antes que o mundo conhecesse o meu nome, guiou meus primeiros passos, corrigiu meus desvios, fortaleceu minhas virtudes e mostrou-me o caminho da perseverança.
Deus, por sua vez, sempre conduz seus obedientes filhos ao triunfo, mesmo que por caminhos às vezes nem sempre compreendidos. Certamente, todo aquele que confia a sua vida aos cuidados e direção de Deus, ainda que seja muitas vezes provado, será sempre atraído pela melodia do amor que embriagará seus sentidos até a eternidade.
Baseada na história de Wolfgang Amadeus Mozart