O caminho das formigas

A trilha até a lavoura não era muito longa. Ainda que fosse, a tarefa nem seria árdua. Enquanto caminhava em silêncio, o jovenzinho recordava a fala da avó: “Serviço de menino é pouco, mas quem perde é louco”. Pior era suportar o sol quente, mas certamente encontraria um frondoso pequizeiro no meio do roçado pra se refugiar em sua sombra, quando não desse sorte de ser alcançado pela proteção de uma grande nuvem, daquelas que atravessam na frente do sol escaldante em dia de céu límpido e intensamente azul.

Os passos preguiçosos se multiplicavam até alcançar a cerca de arame farpado nos limites da lavoura. O boné protegia o cabelo umedecido pelo suor da caminhada e o alforge de couro acomodava alguns quilos de formicida em grãos, tão cor-de-rosas quanto aromáticos.

As formigas que insistiam em picotar e carregar as folhas dos feijoeiros ainda pequenos, faziam trilhas precisamente planejadas, até alcançar o topo dos formigueiros que mais pareciam pequeninos vulcões. De repente, elas adentravam o orifício por alguns minutos, pra novamente saírem e retomarem às trilhas, cruzando com as colegas que levavam minúsculos retalhos de folhas verdes sobre as cabeças. Era um vaivém incessante. As clareiras na plantação estavam por toda parte e ele estava ali pra dar um jeito de fazer parar esse ciclo, salvando a lavoura de suas predadoras.

Retirando um pacote daquela “guloseima”, o garoto espalha um punhado dos grãos meio avermelhados nas proximidades da porta da morada das formigas. Era um processo interessante de se observar, pensava consigo enquanto se agachava a uma pequena distância e ajeitava o boné, com o olhar fixo no vaivém das formigas.

De repente, aquelas que estavam saindo à caça de mais uma folha tenra para picotar, se deparava com aquele petisco cheiroso no meio do caminho. Sem hesitar, elas parecem ignorar a antiga rota e ajeitam aquele estranho, mas apetitoso “biscoito” na cabeça, levando-os apressadamente para o fundo das galerias do solo, lá mesmo onde a rainha repousa as centenas formiguinhas em formação.

Em poucos minutos, todos os pontinhos coloridos desaparecem dos arredores do formigueiro. O menino se levanta e parte para o próximo alvo, erguendo os olhos para enxergar a próxima clareira, onde haverá uma nova trilha que o levará ao próximo pequeno vulcão que, na verdade, provavelmente seja apenas mais uma porta para as formigas, nas extremidades da imensa galeria de trilhas e câmaras subterrâneas interligadas. Quando o menino voltar amanhã, verá que o movimento das formigas cessou por ali. Aquele petisco tão atraente, no ambiente quente e úmido do subsolo, liberou um gás letal que se espalhou por todo o ambiente e dizimou aquela multidão de formigas.

Quantas vezes nos comportamos como elas. Carreamos para dentro de nós pensamentos e sentimentos aparentemente inofensivos e os abrigamos no âmago de nosso coração, alimentando-nos deles. Pouco a pouco somos sufocados pela ansiedade, pelo medo, pelo rancor… e, pouco a pouco, se não agirmos rapidamente no sentido de excretar esses venenos e seus gases inebriantes que nos contaminam, pode ser que, num curto espaço de tempo, nossa essência se perca de vez.

Que Deus nos livre das ações daqueles que estão por aí, matando, roubando e destruindo, muitas vezes usando atraentes petiscos com cheiro de vida, mas gosto de morte, preparados como armadilhas para nossas ávidas almas.

Pr. Anibal Filho

Doutor em Produção Vegetal pela UFG e Pastor auxiliar da Igreja Batista Renascer.

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