Impossível esquecer o dia em que o meu único filho homem nasceu. Quando os médicos me anteciparam a condição dele no ventre, que nasceria sem braços e nem pernas, o mundo pareceu silenciar por alguns minutos. Não era, de forma nenhuma, o que eu sonhava e esperava. Mas, olhando agora para aquele pequeno e frágil bebê, algo tomou meu coração e mente: o fato de ser meu filho, independentemente de qualquer limitação ou condição, era suficiente para que eu decidisse lutar por ele todos os dias.
Criá-lo nunca foi sobre sentir pena, foi sobre acreditar. Por isto, decidimos em família, nunca o tratar como incapaz. Ainda que o cuidado fosse redobrado, o incentivo viria na mesma proporção. Cada pequena conquista era celebrada como uma grande vitória. O simples fato de conseguir segurar um objeto com a boca, para nós, era como assistir a um milagre! Meu marido, seu pai, foi o responsável por ensiná-lo a sentar e a se locomover. Foi seu primeiro grande incentivador e sempre seu grande parceiro!
Não poucas vezes, como mãe aflita, eu me perguntava como seria seu futuro, ainda que não compartilhasse estes temores. Havia medo, incerteza, curiosidade e, sobretudo, uma grade preocupação materna sobre como o mundo o trataria. Todavia, incrivelmente, ele mesmo me ensinava a ter coragem. Ele se desenvolveu sem questionar “por que ele?”, apenas seguia tentando, aprendendo, insistindo.
Como sua mãe, meu papel sempre foi “estar presente”. Adaptando a casa, criando maneiras de facilitar a rotina e, principalmente, ressignificando o sentido de autonomia, de liberdade, de força de vontade. Com o tempo, ele começou a ganhar o mundo do seu jeito: escrevendo, estudando, usando o telefone celular, se divertindo com o skate, interagindo com outras pessoas. Sua determinação e resiliência sempre foram impressionantes, o que enchia a família de orgulho.
Um dia ele conheceu, através das mídias, um homem que tinha exatamente a sua condição e havia superado obstáculos e limitações. Este homem contava que, quando tinha nove anos de idade, tornou-se uma criança depressiva. Imaginava que talvez nunca fosse feliz, não se casaria ou teria filhos, nunca teria um emprego e sempre seria um peso para seus pais.
Meu filho ficou maravilhado ao saber que, quando aquele homem estava com treze anos de idade, aprendeu a ser grato pelo que tinha, não pelo que faltava. Assim, aquele que o inspirava tinha se apaixonado pela ideia de sonhar grande e havia se tornado um conferencista internacional, um escritor. Ele tinha se casado, tinha filhos e ainda achava tempo para contribuir com instituições que criavam currículos sobre valores, inclusão, responsabilidades, caráter e liderança.
Meu filho sentiu-se tremendamente inspirado por aquela história e repetia para si mesmo, fazendo coro aos incentivos de seu pai: se ele conseguiu, eu também conseguirei! Assim, ao invés de se deixar limitar por sua condição física, construiu uma trajetória marcada por coragem, autonomia e uma impressionante capacidade de adaptação.
Hoje, quando vejo o meu filho compartilhando sua história em eventos e palestras, inspirando outras pessoas, sinto que todo esforço valeu a pena. A certeza de que ele nunca estaria sozinho foi um combustível para seus desafios diários, inclusive a conclusão de seus estudos no Ensino Médio e seus planos para a faculdade. Ele se locomove pela casa e, com seus quatro únicos dedos em uma projeção do que seria seu pé, joga videogame, usa controle remoto e se diverte como pode. Ligado em tecnologia, aciona os equipamentos de seu quarto por comando de voz.
Como sua mãe, fico orgulhosa de ver como ele ganhou destaque nas redes sociais, compartilhando sua rotina, seus pensamentos e experiências, sempre com seu belo e cativante sorriso. Por meio dessas plataformas, ele tem inspirado inspira milhares de pessoas, mostrando que limitações físicas não definem o valor ou o potencial de alguém, mas que um ambiente de amor e incentivo molda uma mentalidade positiva e gera disposição para enfrentar desafios que a vida e a rotina lhe impõem.
Ser sua mãe me transformou, me ensinou a enxergar a vida com outros olhos. Se me perguntarem qual foi o maior desafio, não hesitarei em responder: não foi a condição dele, mas o aprender a confiar que venceríamos juntos. Aprendi, desde cedo, a repetir para ele uma promessa de Deus que sempre ardeu em meu coração: nunca te deixarei, nunca te desamparei!