Quando ele chegou em nossa casa, era tão pequeno que cabia quase inteiro nos meus braços. Eu jamais poderia prever o que o futuro havia reservado para aquele menino que adotáramos, pois, na verdade, naquela época, eu não pensava em futuro. Nossas preocupações, minhas e daquela que seria chamada sua mãe, era pensar nas coisas mais simples, como preparar o quarto, aprender os seus horários, descobrir o jeito certo de fazê-lo se alimentar e dormir. Um filho, para mim, não começava com grandes planos. Começava com cuidado, com a responsabilidade de conduzi-lo pela vida, de modo que pudesse ser uma bênção para o mundo.
Nós morávamos em um vale, num lugar de casas baixas e pomares. O sol parecia mais forte naquela parte do mundo e as tardes eram quentes e compridas. Eu trabalhava com minhas mãos, sempre às voltas com motores, ferramentas, madeira, metal. Minha garagem era quase uma extensão da casa, com parafusos em pequenas caixas, pedaços de madeira encostados na parede, latas de óleo, fios, ferramentas penduradas e aquela desordem que só parece desordem para quem não sabe onde cada coisa está.
Meu filho, desde garotinho, gostava de ficar ali comigo, observando tudo em silêncio. Às vezes fazia perguntas que me obrigavam a parar o que estava fazendo. Queria saber por que uma peça tinha aquela forma, por que determinado fio precisava estar naquele lugar, por que uma coisa não podia ser feita de outra maneira. Eu respondia como podia, quando sabia. Quando eu lhe dava uma resposta evasiva ou admitia não saber, ele se inquietava e fazia mais perguntas, como se tentasse descobrir por si só. Foi assim que percebi que havia alguma coisa diferente nele. Não era apenas inteligência, era o fato de não aceitar facilmente as respostas prontas.
Quando me demorava em algo e isso lhe chamasse a atenção, eu lhe ensinava que, quando construímos alguma coisa, devemos fazê-la direito, mesmo nas partes que ninguém vê, nos mecanismos internos. Um motor, por exemplo, tinha de receber uma atenção minuciosa em todas as suas engrenagens, ainda que externamente parecesse apenas uma caixa estranha. Ele ouvia com atenção, talvez até com mais do que eu imaginasse.
Enquanto ele crescia, o vale onde morávamos também mudava. Chegavam estudantes, engenheiros, laboratórios e pequenas empresas. Havia uma sensação de alguma coisa estivesse prestes a acontecer. Os computadores, por exemplo, começavam a deixar de ser aquelas máquinas enormes e distantes que pertenciam apenas a grandes instituições. Jovens passavam horas discutindo circuitos, componentes e possibilidades.
Meu filho mergulhou inteiramente naquele universo. Às vezes eu entrava na garagem e encontrava peças espalhadas sobre a bancada. Outras vezes, ele aparecia falando de alguma ideia que parecia grande demais para caber naquela pequena casa. Eu escutava, porque acredito que um pai nem sempre precise compreender completamente os sonhos do filho, basta não rir deles.
Então veio o primeiro computador, depois outro e outro…
Aquela pequena oficina improvisada começou a parecer pequena demais para o que estava acontecendo ali. Havia jovens entrando e saindo, conversas que iam noite adentro, desenhos, placas, fios e máquinas. Meu filho era como um maestro daquela orquestra científica. Eu olhava para tudo aquilo e ainda enxergava o menino que costumava ficar ao meu lado segurando uma ferramenta. O mundo, porém, começava a enxergá-lo de outra maneira. Vieram os jornais, as entrevistas.
Eu pensava nas minhas mãos sujas de graxa, nas tardes quentes, no menino perguntador e inquieto. Tudo o que eu pude dar a ele era um lugar onde ele pudesse crescer, perguntar, errar, tentar de novo e descobrir quem queria ser. Obviamente a nossa relação teve lá suas turbulências, mas ele nunca quis se aproximar do pai biológico, por me considerar o seu verdadeiro pai. Um dia, eu o observei em silêncio quando ele anunciava a sua primeira de muitas outras futuras revoluções: um belíssimo computador, mas tecnologicamente revolucionário. Percebi que ele havia aprendido bem a lição de que os produtos devem ser bons não apenas por fora, mas principalmente por dentro. Ele tinha chegado lá, no lugar onde sempre desejou estar!
Deus também nos adotou em sua família e nos proporciona, através da Igreja, um ambiente de crescimento e conforto. Como filhos, sabemos que aparência tem seu valor, mas o coração é que precisa ser guardado, porque ele é nosso motor, de onde partem todas as nossas decisões. Como galhos enxertados n’Ele, recebemos a sua seiva, a presença do Espírito Santo em nós, para que cresçamos e produzamos frutos. Na adoção, fomos comprados por Ele por preço inestimável. Agora cabe a cada um de nós impactarmos a nossa geração, como agentes de uma revolução chamada Jesus!
Baseado na história de Steve Jobs