Meu pai e eu: um recorte na história

Sou o quarto de dez filhos. Herdei o nome do meu pai e me orgulho de ter sido o escolhido para receber o seu próprio nome, mas nem sempre foi assim. Quando muito jovem, achava meu nome deslocado, inadequado e o pior, dizia eu, nem era o meu nome, era o dele. Que bobagem! Quando me dei conta, percebi que não é o nome que faz a pessoa, mas o contrário, além de passar a gostar do nome, apesar do seu significado pagão (Ficou curioso? Pesquise!). Não que eu não admirasse meu pai, de quem herdei muitas habilidades amadoras, na música, na marcenaria, no amor por ferramentas, mas é que eu pensava que não tinha sido digno de um nome só meu, como se o mundo não fosse povoado de homônimos. Coisa de adolescente encafifado!

O recorte é hoje. Enquanto digito este texto, estou dormindo na casa dele, cumprindo uma escala no rodízio que nós, os seus filhos, decidimos fazer para cuidar, ter comunhão ou fazer companhia mesmo. Ele, que ficou viúvo há mais de dez anos e está avançado em idade, precisa e merece que façamos isto, além de ser uma atitude prazerosa para nós. Ouço sua tosse rotineira de ex-fumante e escuto seus passos curtos e lentos para a cozinha, enquanto a televisão fica falando para as paredes do quarto, como dizia minha mãe. Pouco ficou daquele homem inquieto, falante e dinâmico. Em contrapartida, sobram histórias de aventuras com feitos exagerados, contadas à exaustão. Um patrimônio de memórias de lutas e conquistas, causos, rompantes de sabedoria e conselhos de quem tem muita história para contar.

No quarto onde estou com laptop no colo, repousam a viola e o acordeom já meio abandonados, além de caixas para guardar quinquilharias, feitas por ele mesmo, com pequenas tábuas de pinus. Ele passou por aqui para dar uma espiada no que eu estava fazendo, e voltou com um café fresco, coisa da hospitalidade goiana, como se isso fosse recomendável a essa hora da noite. Vou rejeitar? Ele fez com tanta vontade de agradar, que eu seria no mínimo deselegante se rejeitasse.

Estou narrando essa crônica do nosso cotidiano para refletir sobre algo que me ocorre há algum tempo. Como demoramos, como filhos, a entender algumas coisas em nossa vida que só a iminência de as perder nos desperta a valorizá-las. Uma semana antes de minha mãe partir para a eternidade, tive um turbulento sonho em que uma voz me dizia insistentemente: cuide de seu pai! Estou tentando obedecer a esta voz que acredito ser um aviso celestial.

Na minha ignorância, rejeitei o nome que meus pais me deram, certamente com a maior ternura e amor, até reconhecer isto como uma honra, o espírito rebelde dava as cartas. Em Jesus Cristo, Deus também nos deu um novo nome (um dia será revelado no céu, escrito numa pedrinha branca), mas por muito tempo rejeitamos esta dádiva. Assim como o meu coração se converteu a meu pai desde que minha dura cerviz se quebrantou diante de Deus, passei a entender melhor o significado de palavras como cuidado, amor e legado.

Hoje tenho prazer e orgulho em tentar descobrir em quantas coisas mais eu “puxei” o meu pai. Da mesma forma, preciso me identificar mais com Deus, buscando a cada dia me parecer mais com Cristo. Este é um recorte da minha história com meu pai. Agora pense em como você pode mergulhar também nessa fascinante descoberta do quanto você se parece ou deveria parecer com o seu e passe a se orgulhar disso! Todo mundo possui qualidades. Além de, claro, pense no quanto  você precisa, assim como eu,  também ser mais parecido com Jesus.

Pr. Anibal Filho

Doutor em Produção Vegetal pela UFG e Pastor auxiliar da Igreja Batista Renascer.

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